Pelo voto nas mulheres que representem as pautas femininas – Candidata Rachel Moreno

Por Juliana Rocha

Estamos na reta final da campanha ao primeiro turno e temos três mulheres entre os principais candidatos à presidência. No legislativo, porém, o quadro é o inverso. O Brasil é um dos piores países em participação feminina no parlamento. Mesmo as mulheres sendo 52% do eleitorado, sendo a maioria da população, tendo maior nível de escolaridade, vivendo por mais tempo, ocupando mais vagas nas universidades, mais de 41% dos postos de emprego e chefiando 41% das famílias, ainda sim ocupamos 8,6% das cadeiras do parlamento *.

É difícil explicar o paradoxo destes números, mas talvez eles expliquem a grande dificuldade que temos em pautar nossas demandas, como a do aborto, equiparação salarial e todas as outras. Precisamos de representatividade, precisamos de mulheres que lutem e representem nossas pautas, que façam leis que nos favoreçam, e que tenham força política para aprová-las. Por isso é tão importante que escolhamos candidatas mulheres que nos representem. É por isso que começamos uma série de entrevistas com candidata.

Hoje entrevistamos Rachel Moreno, candidata a deputada federal pelo PT (1317) de São Paulo. Ela é psicóloga, pesquisadora, especialista em sexualidade e militante feminista desde o começo dos anos 70.

Retirada da página social da candidata.

Imagem retirada da página social da candidata.

Imprensa Feminista: Qual a importância da representatividade da mulher na política? E qual é o espaço das mulheres no seu partido?

Rachel Moreno: Somos 52% da população, e apenas 8% no parlamento. É uma sub-representação marcante. Verdade que temos uma mulher presidente, e que são três mulheres concorrentes à presidência nesta eleição. Mas, ou estendemos essa representação feminina para o conjunto da sociedade e da política, ou teremos uma espécie de “tokenismo”.Por muito tempo, entre as diversas reivindicações do movimento feminista, levantamos a bandeira de “mais mulheres nos espaços de
poder”. O fato de nossa legislação eleitoral exigir hoje um mínimo de 30% de candidaturas femininas  resultado de nossa pressão e demandas. É fundamental, apesar das dificuldades que não são poucas, que ocupemos este espaço e consigamos chegar à igualdade de condições de disputa (e estamos bem longe disso), para que isso se reflita no resultado das eleições e numa representação maior de nossas necessidades e que, mais adiante, possamos chegar a uma representação política correspondente a nossa presença na sociedade.No PT, as mulheres batalharam e aprovaram nos congressos do partido, a paridade nas instâncias de representação e cargos.

IF: Como garantir laicidade do Estado com bancadas religiosas tão fortes e com os partidos fazendo tantas coligações?

Rachel: Esta é uma questão que me atormenta. Acredito que a mobilização do movimento social represente um ator social de peso, que poderia e deveria contrabalançar o equilíbrio de forças que “garantem a governabilidade”(e que incluem as bancadas religiosas), adotada como consequência de uma não-correspondência entre os quadros majoritários eleitos e as bancadas que deveriam lhe dar suporte. Mas, embora diferentemente de muitos outros segmentos organizados da sociedade civil, o movimento de mulheres tenha se feito presente nas ruas, sempre que algo precisasse ser combatido (como no caso dos projetos do “estatuto do nascituro”, ou da “cura gay”, para citar os mais recentes), ou reivindicado, em alguns momentos nos omitimos. Como quando, na última eleição, a Dilma Rousseff se comprometeu a não mexer na legislação referente ao aborto, e não fomos às ruas, temendo interferir negativamente no equilíbrio frágil na fase final da eleição. Nos demais momentos, mesmo nos mobilizando, não temos tido a devida cobertura da mídia, de modo a amplificar as nossas demandas. Mas considero que as nossas palavras de ordem, nas últimas mobilizações, têm sido demasiado focadas (“não à bolsa-estupro”, “não à cura gay”), quando deveriam reafirmar a laicidade do Estado. 

Considero que é o que nos cabe fazer, daqui para a frente. Indicar às religiões que a sua influência deve se limitar ao convencimento de suas/seus fiéis, e que cabe a todos respeitar a laicidade do Estado.

IF: Você atua pelas causas das mulheres desde os anos 1970. Quais foram as conquistas feministas? E o que mudou desde então? Ou seja, quais são as novas pautas?

Rachel: Nos anos 70, batalhamos por creche, e conseguimos a atenção e alguma ação de atendimento da demanda. Além disso, mudamos o perfil das creches – antes depósito de filhos de mães pobres que precisavam trabalhar, para um direito da criança à educação e socialização. Hoje, com mais mulheres no mercado de trabalho, a oferta de creches precisa novamente aumentar, assim como adequar o seu horário ao da jornada de trabalho. Logo depois levantamos a questão da violência de gênero, fundando o primeiro SOS Mulher (em 1979). Hoje temos uma estrutura de acolhimento das mulheres vítimas de violência, que vai das Delegacias da Mulher, aos centros de referência e casas-abrigo, além de orientação do disque-denúncia, incluindo a Lei Maria da Penha e suas medidas protetivas, além dos ônibus especiais que atendem os locais mais desprovidos dessa estrutura, e o início de construção das Casas da Mulher. Falta ainda, em minha opinião, mudar a cultura e desnaturalizar a violência, através de sua discussão tanto nas escolas, como na mídia.Nossa batalha por direitos sexuais e direitos reprodutivos contribuiu para uma maior liberalização da sexualidade das mulheres, com uma certa extensão das medidas protetivas, oferecendo preservativos hoje em qualquer UBS ou posto de saúde. Mas falta incluir educação sexual nas escolas, além de sua discussão nesta poderosa educadora informal, que é a mídia. O direito de ser, ou não ser mãe, se estendeu e foi incorporado na atitude das mulheres. Batalhamos pelo direito de ir-e-vir, em todos os momentos e espaços sociais. E fizemos a nossa parte da lição de casa, estudando mais (hoje acumulamos 4 anos de estudo a mais do que a média da população) e nos fazendo presentes em todas as formações (embora com preferência ainda por algumas delas), nos destacando em termos da qualidade do desempenho.

Rachel em um marcha feminista no ano de 1979. Foto enviada pela candidata.

Rachel em um marcha feminista no ano de 1979. Imagem enviada pela candidata.

Mas ainda sofremos o efeito do “teto de vidro”, que nos torna menos frequentes no topo da pirâmide do mundo do trabalho, e continuamos ganhando menos – cerca de 70% da massa salarial dos homens – além de sermos a enorme maioria exercendo o trabalho mais precarizado. O Movimento Negro Unificado nascia na mesma época (final dos anos 70), apontando as diferenças e discriminações no mundo do trabalho, na representação, nos salários, etc., incorporado no discurso das feministas desde então. O surgimento e entrada no movimento feminista, das lésbicas, ampliou a discussão de todas sobre a sexualidade.Hoje, estamos presentes em todos os lugares. A questão de gênero é, e deveria ser tratada como transversal. E, como somos a maioria dos usuários dos serviços públicos, cabe-lhes se adequar melhor e contemplar as nossas necessidades. A diferença na valorização de nosso trabalho deveria acabar, e caberia, num primeiro momento, contemplar com um selo diferencial e algum benefício consequente (como poder participar ou ter algum ponto a mais na qualificação para participar de licitações públicas) às empresas que efetivamente praticassem a paridade de gênero, em termos de quantidade de trabalhadores, sua representação com relação aos cargos e salários. Precisamos de creches e escolas em período integral, compatível com a nossa presença no mercado de trabalho, com atividades culturais e esportivas no segundo período. Precisamos de fraldários nas praças, precisamos que os transportes públicos se adequem melhor às nossas necessidades de conforto e segurança. Precisamos nos formar e poder ocupar as carreiras melhor remuneradas, e precisamos que se valorizem as que hoje ocupamos. Continuamos precisando de serviços públicos que aliviem a segunda jornada de trabalho (restaurantes e lavanderias coletivas) e que estimulem uma nova divisão e valorização do trabalho doméstico. Precisamos de cuidados de saúde e de projetos de inclusão dos segmentos mais idosos (nos quais, por ser mais longevas, somos maioria), além da humanização do parto, e da discussão adequada dos problemas que decorrem da
sexualidade feminina mais liberada. Precisamos diagnosticar mais finamente os gargalos que ainda impedem a efetiva paridade. E precisamos mudar a cultura que naturaliza a diferença, a violência, a discriminação. E isto significa discutir essas questões nas escolas, contribuindo para a formação das crianças e jovens, neste sentido, assim como adequar e fiscalizar a mídia, de modo a torná-la mais democrática, plural, incluindo a nossa visão e discussão das questões de nosso interesse, e evitar que ela simplesmente banalize ou espetacularize a violência – como tem feito, e que não restrinja a nossa diversidade, bem como a pluralidade no enfoque de todas as questões. Precisamos que a mídia evite a violência simbólica (reprodução de estereótipos e preconceitos), e se torne mais representativa e plural, abrindo espaço para que mostremos e discutamos as nossas demandas, a nossa visão de mundo, os nossos pontos de vista, já que constitucionalmente, temos todos direito à comunicação. 

IF: Qual é sua posição sobre o direito ao aborto?

Rachel: Sou absolutamente favorável à sua legalização, até os 3 meses de gestação, com atendimento na rede pública.

IF: Quais as dificuldades que você enfrenta no dia a dia da política por ser mulher?

Rachel: Falta de recursos financeiros e de igualdade nas condições –só consigo fazer uma campanha absolutamente militante e “a pé”, num mundo de campanhas milionárias e profissionalizadas. A igualdade de condições de disputa, bem como uma reforma política que restrinja as campanhas ao financiamento público, entre outras demandas, se faz necessária.Tenho perdido alguns trabalhos, em função da candidatura – quer por conflito de interesses (pesquisa eleitoral, por exemplo, já que sou pesquisadora), quer pela escassez pressuposta de meu tempo. A casa anda um tanto mais bagunçada, embora conte com a participação decisiva e ampliada de todos. Finalmente, em termos do dia-a-dia da política, tenho que tomar sempre o cuidado de enfatizar que a inclusão maior e o atendimento das questões relacionadas às demandas das mulheres não representam uma exclusão dos homens, mas uma inclusão que vem em benefício de todos, inclusive os próprios.

IF: Qual é a importância política do feminismo?

Rachel: Ao discutir as questões de gênero, o feminismo humaniza as relações sociais, amplia o foco da valorização social da exclusiva produção de mercadorias para a reposição da vida, e propõe uma inclusão e equidade, sem as quais não poderemos falar em socialismo ou sequer nos aproximar de uma sociedade mais justa.

*Fontes:

http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2014/03/17/congresso-e-tse-lancam-na-quarta-campanha-por-mais-mulheres-na-politica

http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2014/03/19/com-participacao-do-senado-tse-lanca-campanha-de-incentivo-a-mulher-na-politica

http://www12.senado.gov.br/jornal/edicoes/2013/03/05/mulheres-ainda-buscam-espaco-na-politica

http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2013/12/11/mais-mulher-na-politica-cobra-reforma-voltada-a-participacao-feminina

Postado originalmente em: http://imprensafeminista.tumblr.com/post/98314961933/pelo-voto-nas-mulheres-que-representem-as-pautas 

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