Turma da Mônica: A decepção

Por Stephanie Ribeiro

Imagem retirada da internet

Mauricio de Souza

Eu sempre li Turma da Mônica. Era uma fã desses gibis, até que neste mês virou assunto na rede um menino de dez anos, que pintou os personagens de negro para se sentir representado.

Depois disso li uma matéria do Mauricio de Souza justificando em outras palavras, que somos todos iguais: “Para mim não há raça branca, negra, amarela… Pra mim existe a raça humana”. Partindo dessa premissa levantei alguns tópicos bem irônicos:

Somos todos iguais, mas só a Mônica é perseguida por ser gorda.

Até hoje eu fico tentando entender qual o propósito de fazer uma menina ser perseguida a série de quadrinhos inteira por ser gorda e receber os piores apelidos e tratamentos por parte dos “amigos”. Seria uma tentativa de conscientização? Olha, eu não acredito nisso. Não creio que é mostrado o bullying para se acabar com ele. Ainda mais seguidamente a personagem é tratada como culpada. O problema não é comer, já que a Magali come e é magra, mas sim a Mônica ser gorda, a ponto dela sofrer na mão dos meninos e das meninas também.

Somos todos iguais, mas só tenho Jeremias como personagem negro da turma.

Intrigante que na busca aparecem outras personagens negras. No caso todas são jogadores de futebol, como Ronaldinho e Neymar, mas da turma mesmo, só Jeremias. Veja, para haver uma personagem branca, ela só precisa falar elado, comer demais, ser dentuça, etc. Para haver um negro, é preciso que ela seja a melhor jorgador do mundo. Num país em que mais de 50% da população é negra, por que só temos um menino negro na turma fixa? E aliás, por que não temos uma menina negra? E por que nenhum dos personagens fixos é negro? Enfim, se o menino de 10 anos não se sentiu representado com a imagem da sua prova, também não se sentiria lendo os quadrinhos e muitas outras histórias que no máximo colocam um negro e acham que são um símbolo de representatividade, só que não.

Somos todos iguais, mas o menino sujinho é o com cabelo crespo.

Só pra reforçar o tópico acima, não posso negar que o fato do Cascão ter o cabelo crespo, que é o associado a negros, ser o sujo, o que não quer tomar banho, e nos primeiros quadrinhos, o pobre. Se isso não é racismo, não sei mais o que é.

Somos todos iguais, mas não temos personagens LGBTs.

Mauricio diz que temos que ter cuidado com alguns temas. Realmente, lgbtfobia é um assunto que deve ser tratado com muito cuidado. A opressão que não o atinge deveria ser exposta nos quadrinhos da melhor forma possível pra gerar conscientização. Afinal, não é quando criança que odiamos, mas é nessa fase que nos ensinam a odiar o “diferente”. Mas parece que para o cartunista ter um negro e uma deficiente física já é o máximo da representatividade que ele pode alcançar.

Mauricio mesmo disse: “Portanto, a Turma da Mônica não deve levantar bandeiras nunca, mas mostrar uma ação”.

Bandeiras não estão levantando mesmo, isso pelo pouco que escrevi deu para perceber. Quanto às ações, muito menos.

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8 Respostas para “Turma da Mônica: A decepção

  1. Realmente Sthefanie Ribeiro. Esse slogan de “Somos todos iguais” ou coisa do gênero é uma frase idealizada pelos brancos para mesclar o preconceito racial para então silenciar nossas vozes e as vozes das crianças negras que circulam em nossa sociedade. O negro que sempre é associado a algo sujo e a negatividade são estereotipadas a ponto de não ser desconstruídos nos contos infantis. Temos que lutar, e desistir jamais de nossos ideias, contra o racismo.

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  2. Stephanie, adoro ler seus textos, realmente me fazem pensar. Mas acho que tem um porém, Maurício escreveu sobre a realidade dele, e naquele tempo, acho difícil ele ter convivido com negros. Eu tenho 25 anos, sempre estudei em escola particular e no meu periodo só estudavam 2 negros. Nenhum deles na minha sala. Cresci ouvindo da bondade da princesa isabel, hoje sei que a realidade foi bem diferente. Enfim, seu que não posso me manifestar em uma luta que não é minha, mas te pergunto, se ele colocasse um personagem negro com algum “defeito” ( como a Mônica ser baixinha, gordinha e dentuça, ou o cebolinha falar errado), você não acha que iriam estar chamado ele de preconceituoso do mesmo jeito?

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  3. Tenho que dizer que as animações não saíram muito melhores, mesmo hoje. Ontem, meu irmão de 5 anos assistia um episódio em que os garotos viam um àlbum de fotos da Mônica. Ao se depararem com uma foto dela tomando banho, passavam as páginas rapidamente e faziam um escândalo. Até aí tudo bem. Mas aí o Cascão solta a frase “Eu prefiro levar uma coelhada do que ver uma baleia encalhada tomando banho”. Olhei pra minha mãe, que sempre teve problemas com peso. Ela parecia decepcionada… E mesmo poucos dias antes, meu irmãozinho a tinha chamado de baleia quando falou pra ela sair da frente da tv.

    Foi uma situação muito desagradável. Fico imaginando como se sentem as crianças acima do peso ao verem que os próprios desenhos que assistem caçoam delas…

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    • Além disso, é reforçada a ideia de que “não é bullying se somos amigos”, o que leva as crianças a aceitarem os insultos dos “amiguinhos” e os outros a acharem que está tudo bem e que são apenas brincadeiras.
      Engraçado que, lendo a Turma da Mônica Jovem, você vê que fizeram a Mônica ser preocupada com o peso mesmo sendo magra, por conta do que ouviu quando criança…

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