O Mercado de trabalho e a mulher

Por Vitória Fox

Limpando metais, 1923. Pintura de Armando Vianna.

Armando Vianna, Limpando metais, 1923.

Não sei dizer, precisamente, há quanto tempo sou feminista, mas me lembro da primeira vez em que decidi conhecer mais o movimento e ler algumas teóricas. Foi em 2009 na semana de História do UniCEUB. A Profª. Drª. Joelma Rodrigues iria ministrar um minicurso em gênero e raça. Sem saber muito o que esperar, me inscrevi e até hoje só tenho a agradecer por ter tido aquela oportunidade. Foi ali que fiz a escolha profissional mais importante dos últimos anos: me dedicar aos estudos de gênero e história das mulheres.

Uma das questões abordadas pelo minicurso foi a diferença salarial entre homens e mulheres, bem como a diferença de tratamento dado aos gêneros no ambiente empresarial. Esses dados do IBGE são bem esclarecedores, pois além de apontar para as diferenças salariais, também mostram que mulheres ainda são minoria a ocupar cargos de liderança e, pasmem, na medida em que aumenta o grau de escolaridade, a diferença salarial se amplia.

Nós, mulheres, somos maioria a ter diploma de pós-graduação (58% segundo pesquisa de 2012), mas ainda ganhamos menos.

Um exemplo da desvalorização do trabalho feminino é o magistério. Ninguém tem dúvidas de que o professorado é uma das categorias mais mal remuneradas do país. A questão, que é pouco abordada nos meios de comunicação, é que nos níveis da educação em que a presença feminina é maior, piores são os salários. Na medida em que o nível vai aumentando, aumenta-se também a presença masculina. Se na educação infantil as mulheres representam 97,9% contra 2,1% de homens, na educação profissional e no ensino superior, os homens saem na frente com 53,3% contra 46,7% e 55% contra 45% respectivamente.

Em 2005 a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) e a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), publicaram um estudo sobre gênero e pobreza no Brasil, concluindo que “apesar do progresso na redução das desigualdades de gênero ainda permanecem substanciais diferenças entre os sexos que além disso, é agravada pela questão racial, fazendo com que a pobreza brasileira tenha um rosto feminino negro”.

Segundo uma pesquisa do IPEA de 2011, as mulheres negras ainda são maioria no trabalho doméstico. Esse cenário não é apenas decorrente das desigualdades de gênero, mas também da nossa herança escravista: “A sobrerrepresentação da população feminina e negra nesta categoria está relacionada não apenas a tradicionais concepções de gênero, que representam o trabalho doméstico como uma habilidade natural das mulheres, mas também a uma herança escravista da sociedade brasileira, que se combinou com a construção de um cenário de desigualdade no qual as mulheres negras têm menor escolaridade e maior nível de pobreza e no qual o trabalho doméstico desqualificado, desregulado e de baixos salários constitui-se numa das poucas opções de emprego.”

Seja ocupando cargos em grandes empresas, seja no trabalho doméstico, as mulheres ainda representam a camada mais desvalorizada no mercado de trabalho. E se formos incluir questões raciais e de classe, as desigualdades são ainda maiores. Diante dessa realidade, é inadmissível que representantes de grandes empresas continuem fazendo declarações altamente sexistas, como fez o presidente executivo da Microsoft, Satya Nadella, na Celebração da Mulher na Computação Grace Hopper no último dia 09.

Na ocasião, Nadella disse que mulheres que não pedem aumento possuem “superpoderes adicionais”, adquirindo assim um “karma bom”, transformando-as em “merecedoras de sua confiança”. Ora Nadella, me diga, então, por quais razões deveríamos confiar em você? Por quais razões deveríamos confiar em qualquer patrão, que na lógica do capitalismo acaba reforçando as desigualdades de gênero?

Os movimentos trabalhistas são uma das frentes da luta feminista, e enquanto a desigualdade existir, é lá que estaremos.

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