Sobre ser aliado

Por Janaína Marques

Laerte

Laerte

Sabemos que num mundo meio cruel, encontrar alguém com empatia é algo de brilhar os olhos. A gente chega a sentir aquelas cosquinhas na barriga igual sente quando está apaixonado.
Nesse momento é que precisamos retomar a sobriedade e analisar as coisas com clareza e razão. Não é todo mundo que diz que apoia a causa, que é aliado, que compartilha do sentimento de um grupo oprimido que realmente está engajado.


Muitas pessoas querem carregar consigo o título de Jesus Cristo Contemporâneo, querem PARECER serem sensíveis às causas sociais. Querem estar in. Querem confete. Querem holofote. Querem popularidade. Querem fazer dinheiro.


Pra uma pessoa que se engaja de coração em causas sociais o confete, o holofote, a popularidade e o dinheiro vêm naturalmente. Isso não pode ser objetivo. As mazelas sociais não podem ser business, senão acaba totalmente o sentido de lutar por elas. Luta-se por elas por crença, humanidade e empatia, não por dinheiro e popularidade. Quando o objetivo é esse vê-se claramente o despreparo e a ansiedade em crescer a popularidade e se tornar comercial.Portanto, às vezes você vê aquele cara que tem um blog sobre feminismo e demais causas sociais, que é a favor da liberdade individual, do poliamor e etc…e você fala: nossa, que bacana! Sim, à princípio é bacana. É muito interessante ver uma pessoa que carrega todos os privilégios sociais consigo cheia de empatia.


Mas agora é a hora que entram a clareza e a razão. Observe essa pessoa, leia com cuidado o que ela escreve, analise, esmiúce. Um potencial opressor escrever sobre seus oprimidos já é complexo, em vista que é difícil separar sua condição social do seu discurso (nem sempre o materialismo dialético funciona nessas horas, a pessoa às vezes não consegue) , quando ele o faz sem o mínimo de conhecimento teórico e de causa é super problemático.


Então repetimos: falar que é sensível a uma causa, escrever resumos superficiais sobre e etc, não é ser aliado. Ser aliado é outra coisa. Ser aliado é se dedicar à compreensão daquilo, é na prática fazer valer o que diz, é conscientizar os demais opressores sobre a causa. Mas conscientizar, repetindo, não é escrever 3 parágrafos de qualquer coisa ou falar meia dúzia de coisas simplistas.
Quando você assume essa posição leviana em relação à luta de alguém (é super leviano você escrever/discursar de qualquer jeito sobre a “dor” do outro – que não é sua!) você está deslegitimando a causa, está tratando de qualquer jeito, como algo corriqueiro, como algo sem qualquer importância.


Você branco que quer ser aliado da luta negra; você homem que quer ser aliado do feminismo; você cisgênero que quer ser aliado da luta trans e assim por diante: procure assumir uma posição de ouvinte primeiro, entenda o que essas pessoas pensam e o que elas sofrem, tente desconstruir o opressor que é você, tente conscientizar as demais pessoas levando o que os oprimidos dizem sobre sua opressão e em último caso (mas em último mesmo, depois de muito estudo, de muita vivência, de muita troca de conhecimento) assuma a posição de speecher na luta alheia.


Aliado que é aliado não sobe no palco, fica na torcida, no operacional e no backstage! 

Postado originalmente em: http://imprensafeminista.tumblr.com/post/93613910553/sobre-ser-aliado

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Uma resposta para “Sobre ser aliado

  1. Achei legal a reflexão. Só queria pontuar em relação ao trecho que fala sobre engajamento nas lutas sociais e sobre o reconhecimento e o dinheiro virem naturalmente… Acho que quem resolve lutar contra o status quo só vai ter reconhecimento qdo a maioria das pessoas entender e tbm passar a contestar a “ordem natural das coisas”… E isso tá bem longe de acontecer. E dinheiro então nem se fala… Não vem naturalmente. Ele nunca vem! Rsrsrsrrrsrsrs Abraços!

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