Mas eu só queria ajudar

Por Gabriela Moura

Por Tailor

Tailor

Existe uma onda bem grande de negativas quando pessoas são questionadas. Ou seja: você questiona algo e no mesmo instante aparece um grupo achando aquilo absurdo – Mas eu só queria ajuda, eu estou ao seu lado!

Para começar, vamos colocar a seguinte frase: ser de esquerda e ser pró o que for, não significa ser inquestionável.

Homens falando de feminismo existem aos montes, banhados pela calda da boa intenção. Não raro são muito bem aceitos. Mas como podem estes homens bem intencionados serem interrogados sobre sua boa vontade? Falando em poucas palavras: uma pessoa que nutra empatia por determinado assunto naturalmente pode falar sobre ele. Uma, duas, três vezes. Entretanto, estando de fora do problema social debatido, há um risco grande de a abordagem ser rasa e se tornar repetitiva com o tempo. Um homem pode falar sobre a importância de as mulheres serem ouvidas, pode falar da problemática das cantadas de rua, pode apontar o erro no uso de termos pejorativos contra mulheres, pode afirmar que não se julga uma mulher por ela usar determinada roupa ou seguir uma religião. Contudo, é preciso dizer: isto não é um favor.

A empatia crescente de um grupo de homens é a demonstração de sua humanidade e ética, mas não deve ser uma chancela para que ele seja colocado em um patamar acima de qualquer outro ser humano, tampouco o torna imune a questionamentos.

Um homem pode escrever sobre todos os temas supracitados, podendo inclusive fazer disso um abre-alas metafórico com seus outros amigos homens que sejam pouco familiarizados com o tema. Mas um homem nunca terá a bagagem para falar da perda da identidade sofrida por uma mulher que é perseguida por um ex-companheiro e precisa mudar sua vida para sobreviver, ou uma mulher que teve sua saúde mental profundamente afetada por ter sido ridicularizada por conta de uma peça de roupa, uma mulher que ouça piadas todos os dias no trânsito, o medo constante de ser violentada a qualquer hora ou local, uma mulher que viva sob o mesmo teto de um abusador, uma mulher que tenha sido prejudicada no trabalho ou emprego simplesmente por ser mulher.

“Mas esse webfeminismo é uma loucura”. Não, não é. O tal webfeminismo levou informação a muitas mulheres que não tinham conhecimento total de seus direitos, estreitou relacionamentos e criou elos. Além disso, é irresponsável chamar mulheres que se manifestam na internet de  meras “webativistas”, utilizando este termo para diminuir uma luta, já que a história de vida de cada uma das ativistas não é de conhecimento pleno do acusador.

Ao lutarmos por uma causa que não nos afeta diretamente, mas ajuda no abismo social em que vivemos e por isto nos incomoda, temos que ter o bom senso de nos aproximar destas minorias. E, se algum membro deste grupo de minorias nos aponta um erro, este apontamento não precisa ser levado como uma ofensa pessoal, e é de bom tom entender o motivo da fala da pessoa que nos questiona tal posicionamento.

As mulheres são alvo de chacota diariamente, inclusive da dita esquerda que gosta de se afirmar apoiadora das causas dos sofridos. Ser de esquerda nunca significou apenas assinar embaixo de qualquer manifesto social sem compreendê-lo, tampouco significa apenas erguer-se contra o governo ou apoiar meia dúzia de políticas afirmativas. Mais que isso, assim como qualquer posicionamento político, a esquerda não é um sistema homogêneo com uma cartilha única a ser seguida, inquestionável e imutável. Mas é, sim, questionadora, por vezes dolorosa.

Um homem pode falar do feminismo enquanto assunto que merece atenção, dada a fundamental importância deste tema para a construção de uma sociedade mais justa.

Mas não, um homem não pode tomar pra si esta fala e ignorar os olhares de estranheza sobre seu material produzido, tentando virar o jogo e se fazer de ferido quando questionado pelas próprias mulheres que dizem não se sentir representadas por ele. Ser escritor não é um favor, ninguém tem que nos agradecer por apoiar causa alguma. Ser escritor é usar o talento da escrita para levar, de forma objetiva e responsável, conhecimento a outras pessoas, e utilizando para isto os meios de comunicação que pudermos dispor. Por isso, seguimos sendo webativistas, arte-ativistas, ativistas de literatura, ativistas do jornalismo, ativistas questionadoras.

Quando um grupo de homens brancos acha absurda a manifestação de mulheres sobre homens escrevendo sobre o feminismo, temos aí o cerne da questão.

Movimentos sociais incomodam porque tiram as pessoas da zona de conforto, e põem em dúvida aquilo que até então tinham como verdade absoluta.

Postado originalmente em: http://imprensafeminista.tumblr.com/post/93635531943/mas-eu-so-queria-ajudar

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