Eloá: seis anos e uma eternidade de relacionamentos abusivos

Por Imprensa Feminista

Projeto Portinari

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Era a última semana de outubro, enquanto organizávamos a agenda e as pautas do final do mês. Eu, como sempre, estava sem criatividade. Então me  sugeriram que eu escrevesse sobre o caso Eloá, que no dia 18 desse mês completou seis anos. Aceitei o desafio, mesmo sabendo que seria difícil para mim. As dificuldades para falar sobre esse caso ultrapassam a própria morte de Eloá se misturando com a minha própria história. Assim como ela, eu também fui vítima de um stalker, a diferença é que eu tive apoio para procurar ajuda enquanto ainda havia tempo. Já a menina Eloá não teve a mesma sorte.

Segundo Nayara, melhor amiga da vítima e companheira no cárcere privado, as perseguições contra a garota começaram muito antes do sequestro, quando o seu namoro com Lindemberg chegou ao fim. Eloá era perseguida pelo ex-namorado em todos os lugares que frequentava: na rua, em sua própria casa, na saída da escola. Eloá vivia com medo, com o direito de ir e vir limitado. Em uma fatídica tarde em que ela e seus amigos faziam um trabalho em seu apartamento, seu assassino chegou armado e os fez reféns. A pedido de Nayara, Iago e Victor foram liberados por Lindemberg. As garotas ficaram.

Esse caso ficou conhecido como o mais longo cárcere privado registrado pela polícia de São Paulo, contabilizando mais de 100 horas. A mídia do país explorou o terror de Eloá e Nayara, ávida por audiência. Quem não se lembra de Sônia Abrão batendo papo por telefone com o sequestrador no programa A Tarde é Sua? Para qualquer pessoa minimamente sã essa ideia é absurda, mas aconteceu diante de nossos olhos e a apresentadora nunca recebeu qualquer tipo de punição ou puxão de orelha da emissora.

Todos nós assistimos ao assassinato de Eloá ao vivo, como quem acompanha mais um episódio de Big Brother. Vimos Nayara sair e voltar para o cárcere, provando o despreparo dos policiais e dos negociadores que cuidavam do caso. Demos holofote a um criminoso que se julgava no direito de fazer o que quiser para ter aquela que queria. “Aquela” ou “aquilo”? Já que esses homens capazes de perseguir, violentar e matar a ex-namorada nunca a enxergaram como uma pessoa autônoma, mas sim como um objeto que lhes pertence.

Até hoje esses crimes são tratados como “passionais” pelos juristas, como se o amor, a paixão ou o sentimento de bem-querer levassem as pessoas a cometerem crimes. Já eu chamo de machismo, misoginia, feminicídio. Esses casos falam muito mais de um homem contrariado que não sabe – e nem quer – receber um não do que de um homem que ama demais. Lindemberg não amava Eloá, ele a odiava, e passou a odiá-la ainda mais quando ela se negou a dar o que ele queria: o controle sobre a sua vida e as suas vontades.

Os dois tiros que atingiram Eloá não se limitaram à sua carne: ficaram marcados em cada mulher como um lembrete do que lhes pode acontecer.

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