O racismo lucrativo disfarçado de humor

Por Gabriela Moura

Encontrado em lojadivadepressao.com.br

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O brasileiro admite que vive em uma sociedade racista, mas não admite o racismo em suas próprias atitudes. De acordo com uma pesquisa, 92% da população enxerga a existência de racismo, mas apenas 1,3% se considera racista. Onde é que essa conta não fecha e qual é a falha dessa equação?

A luta contra o racismo não recebe a atenção que merece. Apesar das incontáveis denúncias esta pauta continua invisibilizada por pessoas que não sofrem este tipo de violência diretamente, e insistem em diminuir a importância do empoderamento negro. Mas por que pessoas brancas não enxergam a importância da causa negra e não desconstroem seu próprio racismo? Primeiro, a pesquisa mostra que apesar de haver o reconhecimento de uma sociedade desigual, os indivíduos não se veem como propagadores de racismo. O problema é sempre o outro. Uma outra causa, muito danosa, é que o racismo é lucrativo.

A TV lucra ao reduzir pessoas negras a objetos de entretenimento, resumidas a estereótipos negativos que a mídia não se propõe a desconstruir, a exemplo da personagem Adelaide, de Zorra Total. E outras marcas também lucram com a diminuição da identidade negra. É o que faz a página de humor do facebook “Diva Depressão”. Aparentemente a página começou com a proposta de “humor ácido”, unindo fotografias de artistas famosas por sua beleza a frases “engraçadas”, mais uma vez aqui usando aspas porque esse humor só serve para um grupo.
Diva Depressão então aproveitou sabiamente seu sucesso para fazer da página uma fonte de renda, lançando uma loja com produtos com as frases anteriormente publicadas no Facebook. Nossa problematização tem seu foco aqui: uma das frases é Je Nes Suis Pas Suas Nega.

A frase “não sou tuas nega” carrega uma agressividade imensa para as mulheres negras, como já fora bem explicado por Stephanie Ribeiro em seu artigo “Você usa a expressão ‘Não sou tuas nega’? É hora de parar”. A expressão é histórica, remete à época em que mulheres negras eram vendidas, compradas, trocadas. Enfim, elas pertenciam a homens brancos ricos que as adquiriam como amantes, escravas ou amas de leite. “Não sou tuas nega” significa “não sou sua negra escrava”, o que quer dizer “não pertenço a você”. A essência racista desta frase é bastante evidente, embora haja quem insistentemente lute para tere o direito de seguir proferindo a expressão que, por séculos, foi usada para colocar a mulher negra em patamares socialmente inferiores.

Ao tomar conhecimento do fato de que a página Diva Depressão estava lucrando com uma frase racista, enviei um e-mail via formulário de contato, explicando o contexto histórico de “Je Nes Suis Pas Suas Nega”, e alegando que o pretenso bem humorado produto era ofensivo. A mensagem, enviada no início de outubro e cujo trecho exponho abaixo, solicitava a revisão do posicionamento da marca diante de um fato considerado grave por mulheres negras:

“Essa expressão é totalmente ligada com a escravidão, quando as negras eram literalmente propriedade de homens brancos. Ela também reforça a associação direta da mulher negra ao sexo, como se ela fosse de todo mundo, como se o papel dela na sociedade fosse estritamente sexual. Pense: e se a expressão dissesse “não sou tuas branca”? Ela passaria a mesma ideia? Certamente não. É possível que ela jamais chegue a ser reproduzida. Gostaria de poder contar com a empatia, respeito e a capacidade de entendimento das pessoas por trás da página e da loja, para que compreendessem quão problemática é a expressão contra a qual temos lutado por tanto tempo.  O fato de vocês acharem que não ha nada de errado com a expressão, não quer dizer que esta visão reflita o que ela representa de verdade. Digo isso porque na fanpage muitas pessoas não negras se mostraram contrariadas e nos chamaram de exageradas, mas demonstraram não ter conhecimento do contexto histórico que nos levou a convidá-los a refletir acerca deste termo que é absurdamente ofensivo às mulheres negras.”

A resposta veio rápida e cordial:
“Prezada Gabriela. De fato a expressão endossada na estampa não é de intuito para o cunho racista. Evidentemente que não colaboramos com nenhuma forma de preconceito ou discriminação, seja contra qualquer pessoa. Informo que sua mensagem e sugestão, será analisada pela nossa equipe.”

Contudo, a resposta não veio acompanhada de uma ação. Houve um suposto entendimento por parte da marca de que se não há a intenção de ofender, a ofensa deixa de existir. O que é um erro primário e demonstra que os administradores não estão preocupados em atender os ensejos de seu público, a não ser que compremos absolutamente todas as ideias sem questionar, ainda que tais ideias sejam carregadas de preconceito. A falta de atitude também deixa óbvia a pouca empatia por parte de uma loja que parece apenas querer lucrar, custe o que custar, pouco se importando em travar um diálogo com potenciais consumidores – partindo do princípio que poderíamos nos tornar consumidores reais se a marca conseguisse desenvolver senso de confiança no público.

Após a página Sinhá Rad ajudar a engrossar o debate, denunciando outro posts racistas da página Diva Depressão – incluindo piadas com cabelo que não seja liso e empregadas domésticas -, eu rebi uma mensagem bastante polida de um dos administradores, explicando que tudo foi um grande ruído de comunicação, pois meu e-mail não havia chegado até ele, uma vez que é outra pessoa que cuida do SAC. Julguei isto bastante comum. Ele ainda disse que já retirou a estampa da loja, o que me deixou aliviada em saber que não haveria mais lucro em cima da estampa racista. O nosso entendimento parecia acontecer de maneira natural, e então eu propus que a página postasse uma retratação, já que no dia em que nos manifestamos muitas pessoas não negras nos chamaram de vitimistas e exageradas, sem compreender a problemática da frase “eu não sou tuas nega”. Como o público sofre influência das mídias que segue, um post de retratação seria uma postura responsável e ética da marca Diva Depressão. Entretanto, o administrador da página alegou que isto não seria viável, pois uma possível polêmica prejudicaria o contrato que eles possuem com um evento beneficente do qual irão participar, segundo o rapaz que fez contato comigo, como uma promessa pessoal de ajudar pessoas carentes e que, além disso, eles não são racistas pois “até têm uma modelo negra no casting da loja, e se eles fossem racistas de verdade, não usariam a imagem dela”.

Esta postura fez cair por terra a boa comunicação inicial, e ainda demonstrou que a suposta consciência social está abaixo de um interesse contratual. Mais que isso, os administradores se envergonham ao pensar em uma retratação, mas acham normal ostentar piadas que debocham da mulher negra.

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