Sequestro de pautas, até quando?

Por Camila Ximenes

image01

Uma das coisas mais preocupantes do cinema (e do mundo) é a falta de representatividade de minorias nas construções dos argumentos, histórias e direção dos filmes.

Um bom filme tem potencial transformador e poder de converter massas em prol de um argumento e isso deveria ser levado mais a sério quando um indivíduo deseja falar sobre àquele gênero, orientação sexual, classe ou outras minorias da(s) qual(is) não pertence.

Vou ilustrar com um exemplo de um homem que dirigiu um filme sobre o relacionamento entre duas mulheres: “Azul é a cor mais quente”. Podemos pontuar neste filme alguns problemas como o retrato infiél da relação sexual entre duas mulheres, as reclamações das atrizes em relação aos abusos do diretor e um certo reforço da fetichização produzida pelo patriarcado em cima da relação entre mulheres. Esse tipo de mensagem reducionista e desleal pode ser extremamente prejudicial à quem pertence àquela minoria. Sendo um pouco mais óbvia: o filme reforçar a relação entre mulheres num papel totalmente heteronormativo por exemplo, resulta no reforço da mentalidade não verdadeira de que numa relação entre duas minas, uma deve ser mais masculina e outra mais feminina, mas ambas devem ser femininas o suficiente para que a sociedade não veja essa relação como suja e feia. Bom, o que esperar de um filme dirigido por um homem e aparentemente sem mulheres bi/lésbicas envolvidas?

Podem haver filmes dirigidos por homens que retratam bem o que é ser uma mulher ou outra minoria? Poder, podem.

Mas acredito que sempre haverá uma falha quando não houver uma real participação daquele que vive na pele a opressão da qual se trata o filme. Essa falha pode se converter em algo ofensivo, na construção de um argumento raso ou ainda num completo desserviço às militâncias dessas minorias.

Como sou feminista de carteirinha, vou falar da realidade feminina nos filmes. Temos alguns milhões de problemas, mas vou pontuar apenas alguns: a misoginia generalizada, a falta de protagonistas femininas relevantes e a construção infantilizada e simplista das personagens mulheres. Fora o uso de violências gráficas desnecessárias e ofensivas a quem faz parte das minorias.

Fiz uma lista com alguns filmes que eu acreditava que eram verdadeiramente fiéis a realidade feminina ou que tivessem construído personagens mulheres complexas e não infantilizadas, bem distante daquilo que chamamos de “maniac pixie dream girl” e qual foi a minha surpresa em perceber que todos foram escritos por… surpresa! Mulheres. Pena que são poucos pois os homens representam 87% dos roteirisitas do cinema. Pra você vê como tá difícil a vida das mina.

Precious – Um exemplo da representatividade feminina e negra no cinema. Precious conta a história de uma jovem negra e gorda que é constantemente abusada pelo pai e violentada pela mãe. O filme foi baseado no livro “Push” da autora Sapphire que também é negra. Também vale salientar que foi dirigido por um homem negro, o Lee Daniels.

http://www.imdb.com/title/tt0929632/

Thelma & Louise  – Um dos meu filmes favoritos. Duas protagonistas que se libertam dos abusos e opressões que vivenciam cotidianamente e se libertam, se empoderam. Roteiro de Callie Khouri e direção de Ridley Scott. Também podemos citar a participação da atriz Geena Davis, feminista militante.

http://www.imdb.com/title/tt0103074/?ref_=nv_sr_1

Marie Antoinette – Escrito e dirigido pela Sofia Copolla, temos uma Marie Antoinette que é oprimida num ambiente que quer enquadrá-la e se rebela diante dessa situação. A protagonista é ousada, complexa.

http://www.imdb.com/title/tt0422720/?ref_=nv_sr_1

Ginger and Rosa – Neste filme escrito e dirigido por Sally Potter, temos duas jovens cheias de vontades próprias e nem sempre elas condizem com o que o mundo espera de garotas adolescentes.

http://www.imdb.com/title/tt2115295/?ref_=nv_sr_3

Trilogia Antes do Amanhecer – Celine uma das personagens é uma mulher forte e pensante. No decorrer da trilogia podemos ver seus anseios, sua resistência em não se tornar o que o mundo espera que ela se torne: submissa ao seu marido. Celine é das minhas, uma personagem declaradamente feminista.  O roteiro do primeiro filme foi escrito pelo diretor Richard Linklater e pela Kim Krizan. Os demais filmes da trilogia tiveram a participação da Julie Delpy (Celine) e do Ethan Hawke (Jesse).

http://www.imdb.com/title/tt0112471/?ref_=nv_sr_3

Maleficent – Não podia faltar na nossa lista né? Malévola é uma mulher empoderada, complexa e humana. E super bem interpretada pela atriz Angelina Jolie, também militante de causas humanistas. Essa roteiro foi escrito pela Linda Wolvertoon. Linda e Angelina deram várias entrevistas falando de alguns momentos cruciais do filme e mostram a preocupação que tiveram com as pautas feministas.

http://www.imdb.com/title/tt1587310/

Postado originalmente: http://imprensafeminista.tumblr.com/post/98064871208/sequestro-de-pautas-ate-quando

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s