A terceirização da misoginia: o incômodo com a palavra “presidenta”.

Por Janaina Marques

Chico Shiko

Chico Shiko

Em tempos polvorosos, nos deparamos com o que há de pior no âmago dos seres humanos. Seus preconceitos mais sórdidos estavam deitados em berço esplêndido à espera de um canal para que pudessem se externalizar. Isso não seria nem um pouco diferente com a misoginia.

Deixando um pouco de lado os percalços de seu mandato e pontuando a representatividade feminina, temos uma conquista histórica de uma presidenta no comando do Brasil. País esse marcado pela violência contra a mulher, prostituição infantil, altos índices de estupro, etc.

Considerando que no Brasil pouco se entende sobre política, até mesmo por aqueles que carregam diplomas de doutor como orgulho, me atento para o fato de alguns incômodos específicos em relação a presidenta que revelam e muito toda a misoginia do emissor da mensagem.

Essa semana parabenizei uma colega de graduação pela chegada de seu diploma, no qual está escrito “Bacharela em Ciências Econômicas”. Além de parabenizá-la, destaquei que me agradava muito ter em nossos diplomas o termo no feminino.

Para o meu espanto, ou nem tanto, um professor que nos ministrou aulas durante a graduação afirmou que aquilo era a invenção de “uma anta presidenta”. Contestei, disse que aquilo era gratificante uma vez que nos representaria, nós mulheres, finalmente no mercado de trabalho.

O que me espantou de verdade foi sua resposta: “quem precisa (sic) desses termos, é quem tem traumas ou problemas com a feminilidade”. Logo interpretei que se referia ao boato da nossa presidenta ser homossexual, uma vez que sua performance se distancia um tanto do que consideramos feminino (não que eu acredite que exista alguma relação entre ser lésbica e ser “masculina”, mas é assim que as pessoas de modo geral enxergam, erroneamente).

Ora, se desviar da performance de um gênero imposto não necessariamente significa trauma ou dificuldade, ou até mesmo homossexualidade. Ou mesmo que possa significar, isso não desqualifica uma pessoa e nem sempre compromete seu desempenho. Caso comprometesse, a função humana nossa não é expor ou achincalhar tal.

Claro que não deixei por menos. Afirmei que, pessoas (em especial homens) que têm problemas com termos no femino são as que têm “dificuldade” na verdade. Se sentem ameaçadas pela presença explícita da mulher na sociedade. Por fim, a conversa se encerrou com um despejo de senso comum do mesmo, afirmando que não “soava bem” o termo presidenta e dizendo que eu vivia em outro planeta (risos). Eu, particularmente, adoro pescar os atos falhos das pessoas e suas tentativas frustradas de esconderem seu preconceito.

Além disso, caso esse que se repete diariamente, vejo pessoas bradando que a nossa presidenta cometeu um assassinato à gramática, destruindo a lógica. Pois bem, quem de nós utiliza o português integralmente na norma culta? Ninguém. E não há nada de errado e inculto no termo “presidenta”.

Essa busca incansável por argumentos genéricos, líquidos e mais rarefeitos que o topo do Everest, revela a materialização do preconceito, e no caso especificamente, da misoginia.

Ninguém irá admitir sua misoginia ou seu discurso misógino. Vão apelar à linguística, à ciência, à matemática, à geografica, menos ao pragmatismo. Não que as ciências apontadas não sejam pragmáticas, as pessoas que as utilizam de forma equivocada para camuflar seu preconceito é que não são.

Longe de mim negar a ciência, não é esse meu propósito. Meu propósito é apenas mostrar um padrão de comportamento, padrão esse que recorre a todas as esferas do saber da maneira mais rasteira possível com um único objetivo: negar a realidade, negar a misoginia.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s