O caso do intelectual apoiador

Por Vitória Fox

assedio

Autor não identificado

Se tem algo que nem todas as feministas revelam é que somos testadas diariamente, e que se ontem você afirmava uma coisa, a vida a levará por caminhos que desconstruirão suas crenças. Existem situações que não estão registradas em cartilha nenhuma, e você só saberá o que fazer quando for confrontada. E na verdade, tem vezes que nem assim você encontra uma resposta, ou a resposta que você encontra não é aquela que queria. Se você entrar em negação, não se assuste. Você, minha irmã, não foi a primeira e nem será a última a passar por isso.

Há não muito tempo atrás eu me posicionava de forma contundente contra o discurso defensor da “misandria”. Não por acreditar em opressão contra uzomi-branco-cis-het – pelo menos eu sempre tive consciência da falsa simetria -, mas porque nunca gostei do clima de apreensão e terrorismo que isso poderia gerar. Eu nunca entrei no feminismo para ter medo-ódio-desconfiança dos homens. Eu entrei porque queria me libertar, viver em paz comigo e com outras pessoas, ajudar a conscientizar algumas mentes. Em suma: contribuir na construção de um mundo melhor, onde meninas e mulheres não sofram por serem meninas e mulheres. Qualquer um que tenha acesso ao meu perfil do facebook e ao meu blog vai encontrar as críticas que faço ao próprio feminismo, e muitas delas tem como alvo a exclusão indiscriminada de homens dos nossos espaços.

Mas tem coisas que só a experiência vai mostrar. Primeiro veio o desconforto com a dura realidade de que até para falar sobre feminismo na imprensa os homens tem mais espaço do que nós. Quem não se lembra da carta de repúdio ao Alex Castro? Eu fui uma de suas idealizadoras, e pela primeira vez fui alvo – junto a outras autoras – da exposição virtual. Fomos desacreditadas, chamadas de burras até por outras feministas. Nos tacaram a pecha de feministas radicais – feminista radical, eu? Rysos! – e por uma semana fomos o assunto das páginas de esquerda da internet. Mas apesar de tudo, essa situação serviu para me mostrar que juntas somos mais fortes, e foi então que fiz uma das escolhas mais importantes de minha vida: a opção prioritária pelas mulheres. Mesmo sendo feminista há muitos anos, essa ficha ainda não havia caído. Quantas vezes eu me posicionei em defesa de um homem quando achei que outras feministas estavam pegando pesado demais? – Muitas. E quantas vezes um homem me defendeu quando fui o alvo? – Nenhuma, exceto o meu marido e alguns amigos que estão fora dos movimentos sociais. Você não vai me encontrar defendendo a misandria como tática de resistência, porque não acredito nessa estratégia. Você não vai me encontrar falando “coloque aqui suas male tears” e nem convocando outras mulheres para “rachar macho”. Mas você não vai mais me ver rifando outras feministas por elas usarem estratégias que eu não usaria.

Terminado o primeiro desabafo, vou para o segundo: essa semana os coletivos feministas foram surpreendidos por uma denúncia gravíssima envolvendo Idelber Avelar, um intelectual conhecido e aclamado da esquerda, uma mulher adulta e uma menor de idade (para ver os prints da denúncia, clique aqui). Eu confesso que não conhecia a peça, mas diversos amigas/os que eram fãs do cara ficaram muito decepcionadas/os. E não é qualquer tipo de decepção, como quando você descobre que seu ídolo dá RT em postagens do Lobão – o que pra mim já é deveras decepcionante -, mas aquela que dói bem fundo, que te dá vergonha de ter gostado da pessoa algum dia. Esse cara é obcecado por mulheres casadas em crise nos seus relacionamentos. Dizia não “comer” solteiras porque elas se apegam e ele é “poli” (polígamo? poliamorista?), e além do próprio tesão em mulheres casadas, havia também o tesão em si mesmo: ele tem uma grande obsessão em ser comparado a outros homens, em ter o pau considerado maior, em “amansar corninhos” como ele mesmo dizia. Ele constrangia mulheres pelo bate-papo, chamava-as de vagabundas, piranhas. Se gabava de que havia uma fila de mulheres no Brasil esperando para dar pra ele. Gostava de brincar com o sentimento de culpa delas chamando seus maridos de cornos. Humilhava esses maridos que nem estavam na brincadeira. Esse tipo de comportamento aponta para um indivíduo altamente ególatra, no mínimo. Algum problema com o fetiche dele? Nenhum. Algum moralismo? Tampouco, quando é consensual, qualquer coisa no sexo é válida. Mas a partir do momento em que as mulheres com quem ele se relacionou reclamam e se sentem humilhadas, aí sim temos um problema. E levando em consideração que o assédio a uma delas começou quando a garota tinha 15 anos, a situação é mais grave ainda.

Veja bem, não estamos falando do doido da esquina que bota o pau pra fora – embora ele tenha mandado fotos do pinto sem nenhum aviso prévio -, do mascu seguidor de Silvio Koerich, do homem senso-comum que diz que “a vadia mereceu ser estuprada porque sua saia estava curta”. Estamos falando de um intelectual, professor universitário de uma instituição norte-americana, vencedor do prêmio Machado de Assis, super queridinho dos movimentos sociais – inclusive o feminista – que está agindo dessa forma há mais de uma década. E o pior: várias pessoas sabiam e tinham medo de denunciar devido à posição privilegiada do rapaz. E levando em consideração que até outras feministas estão defendendo o amigo, esse receio de abrir a boca faz algum sentido.

Cynthia Semíramis, uma feminista que respeito muito, disse que o que está havendo é um linchamento virtual, perpetrado por um “movimento político misândrico”. Eu também não gosto de punitivismo e nem acho que a intenção seja punir o cara, mas qual a linha que separa o linchamento de uma reação de defesa de um movimento social atacado sistematicamente? Eu sempre serei a favor da resolução jurídica, mas também sei que é prática comum do Judiciário colocar a culpa na vítima. Cansei de ouvir histórias em que acusados de estupro, com fortes evidências físicas do crime, saíram sem cumprir qualquer tipo de pena. Imagine esse caso? De qualquer forma, ele não é um menino de rua negro amarrado a um poste. Ele é um homem adulto, branco, de uma classe abastada que teve parte de suas conversas expostas na internet com a finalidade de alertar outras mulheres. Se essa denúncia ajudar a informar outras pessoas do perigo que esse cara representa, já tivemos algum avanço. Eu nem sei se esses assédios configuram crime – talvez o que envolve a menor de idade, sim -, mas que configuram uma ameaça, disso tenho certeza, e eu gostaria de saber quando algo assim está acontecendo dentro dos espaços em que eu deveria me sentir segura.

Quanto à misandria como motivação da denúncia, a pergunta que faço é outra: até que ponto as feministas radicais – aquelas que eu tanto quis me dissociar – estavam certas ao nos alertar sobre os homens apoiadores? Esse cara era um dos últimos homens de quem esperaríamos esse tipo de coisa. Quantos outros casos não estão acontecendo agora, nesse exato momento, e que não fazemos nem ideia? Eu não sei se todas as pessoas estão conscientes da seriedade disso, do que esse caso representa, mas eu posso ver as rachaduras em nossas paredes, as quais teremos que rebocar depois.

Eu não quero viver com medo dos homens. Eu não quero abrir mão de acreditar na outra metade da humanidade. Mas esses casos de misoginia que ocorrem dentro da minha bolha me assustam. E por favor, não me julguem se eu quiser me proteger.

Anúncios

5 Respostas para “O caso do intelectual apoiador

  1. Desconfie de quem vc quiser ora, se proteja. Desde que o Netinho foi preso por espancar a mulher que foi mais do que provado que machismo é algo que pode haver em qualquer lado, seja direita ou esquerda e que não tem cor, classe social, etc. Eu só não entendo o porque disso vai te fazer ter ódio de todos os homens no geral. O machismo também esta presente nas mulheres. Assim como psicopatas não tem sexo,cor, religião, nem ideologia politica, classe social definidas. Pode estar em todo lugar e em qualquer ser humano, ate naqueles em que menos se espera.

    Curtir

    • Eu não disse que EU, Vitória Fox, sou misândrica. Inclusive deixo isso bem claro no texto. Agora, tem feminista que encontra sim na misandria táticas de resistência e não serei eu que vou rifá-las ou fiscalizar o ativismo delas. Mencionei a misandria no meu texto pq segundo Cynthia Semíramis, é ela que motivou a exposição virtual do prof. Idelber, e é bastante óbvio que não foi isso, mas sim o desconforto com as próprias merdas que ele cometeu (uma dica: não tem só feminista radical criticando o professor abertamente na web não). Quanto ao meu último parágrafo, ter medo dos homens e desconfiar deles independe de ~misandria~. Não sei como vc chegou a conclusão de que me tornei “odiadora de homens”.

      Curtir

  2. Parabéns pelo texto Vitória. Pondera muito bem toda a situação, o abuso ali cometido por Idelber, para além de as situações configurarem crime ou não. Não é a questão legal o ponto central do caso. Um bom contraponto também às feministas radicais misândricas, que tem aproveitado essa e outras situações, que são sim abusivas, para destilarem seus ódios contra todos os homens, como você disse metade da humanidade. O machismo é estrutural, mas para algumas infelizmente, trata-se de atacar um a um, qualquer homem, mesmo que se disponha a rever seus atos machistas.

    Curtir

    • Rafael, eu não sou a melhor pessoa para defender a misandria. Como disse, não acredito que ela seja uma boa tática do ativismo. Contudo, de todas as feministas que conheci que se consideram misândricas, 100% foram vítimas da misoginia de forma sistemática no decorrer de sua vida, e me sinto muito desconfortável em pautar como essas pessoas deveriam reagir à violência que sofreram. A bem da verdade, misandria não está institucionalizada na sociedade e nunca matou ninguém. Então para mim é óbvio que existe uma falsa simetria quando tentam compará-la à misoginia e outras formas de exclusão históricas. Sobre essa falsa simetria, exponho alguns questionamentos nesse texto: https://imprensafeminista.wordpress.com/2014/11/05/a-historicidade-da-opressao-algumas-elocubracoes-sobre-genero-no-malleus-maleficarum/

      “Partir do princípio de que toda a humanidade está em pé de igualdade e afirmar que todas as formas de discriminação são iguais, é uma argumentação que mascara e silencia as diferenças que a sociedade continua perpetuando. O homem branco, cisgênero, heterossexual e com poder econômico nunca foi denunciado sistematicamente por diferentes instâncias durante séculos, como aconteceu com mulheres, negros, lgbt’s e demais minorias. Com isso não quero propor que todas as mulheres saiam por aí pregando ódio aos homens ou que negros saiam queimando brancos na fogueira, mas que as discriminações sobre nós possuem uma historicidade que nem de longe se assemelha a um episódio isolado de “misandria”¹ ou ódio aos europeus. Tratar essas discriminações da mesma forma é uma distorção dos processos históricos que nos fizeram chegar até aqui.”

      Curtir

  3. Pingback: Latuff e meu gole de razão |·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s