A Violência Misógina e o Pensamento que a Sustenta

Por Mandy Mazza

Autor não identificado

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O G1 publicou um infográfico com os dados de 2013 sobre a violência contra a mulher, com fontes que vão desde o Ipea à Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal. Apesar de apresentar números estarrecedores, as pesquisas apontadas ali apenas corroboram o que todas nós sabemos pela nossa própria experiência: o processo social que possibilita a existência de violência misógina se baseia em estruturas milenares de subordinação, sustentadas, entre outras coisas, por um imaginário social culpabilizador. Mantém-se milênios de história da humanidade com mitos que, de Pandora a Eva, empurram para a mulher a culpa pelo que se afirma ser a desgraça do homem. Do homem que, graças à posição social que ocupamos, é sempre tido como superior a nós.

Quando eu fui vítima do espancamento mais violento que levei em 2012 pelo meu ex-namorado, recebi uma mensagem dele no Facebook dizendo que eu estava “colhendo o que plantei”. Enquanto me escondia no quarto a portas trancadas para que ninguém suspeitasse dos meus hematomas, da minha dor, ele chegou a acrescentar na mensagem: “Você corre atrás disso e depois me denuncia? Seria uma filha da putagem sua.” Eu não denunciei. Por muito tempo, inclusive, sequer falei sobre isso. Pode parecer desnecessária a exposição de um caso individual, mas as falas do meu ex-namorado exemplificam e sintetizam o pensamento que permeia o imaginário social. Eu teria feito algo que aborreceu um homem – no meu caso individual, fui espancada após relatar estar grávida dele, uma gestação que ele não queria que seguisse adiante; já que teria acontecido por culpa minha, que não sabia “fechar as pernas” para ele. Eu teria procurado, a culpa de toda a ocorrência e do risco de morrer em toda a situação que se sucedeu daquilo eram minhas, então não seria justo prejudicar a vida pessoal dele ou o início de uma suposta carreira jornalística pela qual ele se enveredava. Aquilo me acorrentou, me convenceu a não tomar nenhuma providência, simplesmente por ser a repetição de uma fala à qual nós, mulheres, somos acostumadas desde sempre.

De acordo com os dados de algumas das pesquisas expostas no infográfico do G1, 11,20% de nós, considerando as que denunciaram atos de violência, tínhamos alguma relação afetiva com quem nos agrediu. 82,82% de nós tínhamos relação familiar com nosso agressor. Isto é, o meu caso individual, contado resumida e brevemente aqui, não é tão individual assim: somos alvo de violência dentro de relações que têm valor sentimental ou social para nós. Há dependência emocional, psicológica, financeira e de toda a ordem para que muitas de nós tenhamos apanhado, sido estupradas, e continuado com o agressor. Há, ainda, uma força social que nos impede de denunciar – sabemos o tratamento que recebemos do Estado, o deboche que enfrentamos em uma delegacia de polícia -, de forma que todos esses números sejam bem pequenos se considerarmos o que deve ser a verdade de fato. Uma simples conversa com outras mulheres nos revela quantas delas jamais tornaram conhecidas as violências das quais foram vítimas.

Depender emocional ou psicologicamente de um homem não é algo incomum, já que passamos a vida inteira tendo a nossa autoestima minada, ao mesmo tempo em que somos convencidas de que a legitimação de nossa existência enquanto seres humanos se baseia em ter um homem ao lado – 48% dos entrevistados na pesquisa “Violência contra a mulher: o jovem está ligado?”, do Instituto Avon com Data Popular, acreditam que é errado uma mulher sair desacompanhada de um homem com quem tenha algum relacionamento. Uma dependência financeira também não pode ser vista como algo inimaginável nos dias de hoje, sobretudo se levarmos em conta que os salários de homens e mulheres não são equiparados e que a classe opressora é, obviamente, a classe que emprega. São eles que detém o poder econômico e desfrutam das ditas “vantagens” do capitalismo.

Apesar dessas tantas razões, de dependências geradas em nós desde sempre, 65% dos brasileiros concordam que mulher agredida que continua com o marido gosta de apanhar. 58,50% chegam, ainda, a concordar que se a mulher soubesse ‘se comportar’ haveria menos estupros. Se houver ira em algum homem que conhecemos, a culpa é nossa. Se houver “estímulos” em algum homem que nunca sequer vimos na vida, a culpa também é nossa. Subordinação sustentada por culpabilização.

De tão culpada que colocam a mulher e de tantas peculiaridades ou individualidades que pensam sustentar uma relação – quando se ignora o fato de que a violência é sustentada pela sociedade inteira, não um caso específico de alguns indivíduos “fora da curva” -, esbarramos frequentemente em situações nas quais mulheres são vítimas de violência sem que nada seja feito. Ignora-se, deixa-se para lá. Por mais que uma estrutura de milênios, mantida pelos homens, empurre as mulheres para essa situação, o problema se torna somente delas. É diante dessa situação que frases como “briga de marido e mulher não se mete a colher” são naturalizadas. O resultado? Bom, as mesmas pesquisas expostas dão conta de responder: a cada 1h30, uma de nós é morta. Uma de nós é morta sob a inércia generalizada, típica daquelas situações em que todos se omitem por não ser um problema de ninguém, de ninguém além da vítima.

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