Um relato de libertação do corpo

Por Juliana Rocha

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Potentiallyinsane

Depois de reeleita, a presidenta Dilma foi passar uns dias de folga na praia. O UOL fez um álbum deste grande acontecimento e eu vi. Apesar de ser algo particular e irrelevante, as fotos estavam lá, pipocando em todo portal e redes sociais. Eu vi uma mulher de 67 anos de biquíni. E, por motivos óbvios, não li os comentários.

Se já falaram da Scarlet Johansson, jovem, magra, loira, se já falaram da Julia Roberts, de UMA LINDA MULHER, e de tantas outras mulheres dentro do padrão, o que não comentariam da Dilma? Nada melhor do que comentam dela vestida – “dentuça”, “mulher-macho”, “gorda”.  Lembrei a “polêmica” da Beth Faria na praia. Uma mulher de 70 e poucos anos. Eu não ia ler aquilo!

A chegada do verão para a mulher não significa apenas calor, praia, sol, férias e cerveja gelada. Para a mulher, a chegada do verão vem junto com mais pressão, mais policiamento. Para as mulheres dentro do padrão, começam a aparecer matérias na mídia em geral sobre dicas para enxugar a barriguinha, tratamentos e exercícios para celulites, para não fazer “feio” na praia.  Para as mulheres fora do padrão, só nos resta MUITA CORAGEM para enfrentar o medo de mostrar tudo que escondemos por baixo da roupa, tudo que ouvimos desde a mais tenra infância que é feio e vergonhoso.

Essa coragem eu não tive durante aproximadamente 20 anos!

Na minha infância eu era alucinada por praia. Como toda criança. Íamos uma vez por ano e eu sempre fui louca pelo mar.

Quando eu me mudei para uma cidade com praia, continuava amando. Mas já não me sentia tão bem lá. Sabia que meu corpo seria avaliado e que todos iriam falar das minhas estrias, que de repente apareceram no meu corpo. Sabia que iam falar, por que me lembrava da minha mãe reclamando da única estria que ela tinha. Lembrava que desde pequena ouvi o que as pessoas que eu amava e me amavam falavam na praia do corpo de outras mulheres.  Eu sabia que aquilo era vergonhoso. Também já não era magra, e sabia que comparariam o meu corpo com o corpo magro da minha mãe.

Mas continuei indo. De repente comecei a ir somente quando estava vazia. Lembro bem de um dia em que eu estava na água e apareceu alguém na areia, conversando com quem me acompanhava. Eu não queria sair da água, afinal aquela pessoa não podia ver minhas estrias. Pedi para minha prima levar uma toalha, ou canga, ou qualquer coisa até o mar para que eu saísse tampada. Ela levou uma dessas pranchinhas de isopor e eu achei menos vergonhoso sair com aquilo me tampando do que sem nada.

Depois disso já não tinha maiô ou biquíni que escondesse tudo que eu “precisava” esconder, e eu parei. Parei de ir à praia totalmente, durante quase VINTE ANOS.

Morando numa cidade litorânea e no calor insuportável eu precisava de desculpas. Eu dizia que quem mora na praia perde o interesse, dizia que não gostava mais, que a cidade estava muito cheia… Dizia que tinha vergonha? Não, todos sabiam. Sabiam por que concordavam que meu corpo não podia ser “exposto”. Que eu devia mesmo me envergonhar. Já até ouvi em alguns verões coisas como: “vamos, você fica de short e blusinha!”

Precisei de alguns anos de feminismo, de feminismo anti-gordofobia, de body positive, de empoderamento, de contato com mulheres iguais a mim, para cogitar a possibilidade de voltar à praia.

E no começo deste ano, eu fui à praia.

Comprei um maiô. Detestei.  Meu namorado disse que eu estava linda. Minha mãe arrumou a parte que eu não gostava. E eu fui. Foi difícil. Eu não queria tirar o vestido. Fiquei lá sentada sem saber o que fazer olhando as pessoas e seus diferentes corpos. Era uma praia com o mar calmo e por esse motivo tinha muitas crianças e famílias. Tinha pessoas gordas, com celulites, senhoras, mas ninguém tinha meus braços que eu odiava. Ninguém tinha meu corpo. E é dele que eu estava com vergonha. É do meu corpo que eu aprendi a ter ódio.

Me doeu muito que eu ainda sentisse aquilo. Porque o feminismo me ajudou achar lindo corpos gordos, celulites e estrias,  mas não o meu corpo, mas não as minhas celulites e estrias.

Então decidi que não ia voltar para casa sem tirar aquele vestido e ir para o mar. Tirei. Não sem antes olhar para os lados e me certificar de que as pessoas estavam aproveitando suas vidas na praia e não me olhavam. O caminho até o mar durou uma eternidade. Meu namorado repetia “você está linda” e eu só pensava nas pessoas olhando minha bunda.

Mas quando entrei no mar vivi ali um dos momentos mais emocionantes da vida. Todos aqueles anos que eu me privei passavam pela minha cabeça enquanto eu boiava na água. Foi a coisa mais libertadora que eu fiz.

Eu voltei a praia mais algumas vezes e foi ótimo. A vergonha do meu corpo continuou e ainda continua. Uma coisa que o feminismo não nos dá: uma válvula que ativamos e deixamos todas as opressões vividas durante toda a vida não nos afetar mais e que deixem de nos oprimir.

Entretanto, durante esses anos de feminismo, uns 4 ou 5, através de mulheres lindas, fortes, poderosas, que lutam contra opressões e violências – Como eu! -, ele me disse o quanto meu corpo é perfeito, o quanto nós somos maravilhosas e me deu a mãozinha me levando à praia – de maiô, sim!

E para esse verão já comprei outro maiô e cheguei a achar que fiquei bonita!

Preparem por que vai ter gorda na praia, sim!

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2 Respostas para “Um relato de libertação do corpo

  1. Não só amei o texto, concordei com tudo, como me emocionei. É isso. Se odeie e não se divirta se vc ousar ser normal. E por mais que nós, que entramos nessa luta do feminismo, aceitamos os corpos das outras e as incentivamos a amá-los, ainda não aprendemos a nos aceitar, a nos amar. Ser gorda é ter que pedir desculpas e dar muitas explicações sobre o que vc fez com vc mesma, qual a razão de estar desse tamanho de uma hora pra outra. É viver jurando para si e para os outros que irá emagrecer. Os olhares de todos nos condenam, muito difícil virar o jogo, mas continuaremos exercitando a auto aceitação. E vamos continuar indo à praia, mesmo que ainda seja um exercício interno, vamos até que a gte possa se amar em paz, com o peso que for.

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  2. Amei o texto!
    Não sou gorda, sou magra, mas me identifiquei também com o texto no sentido de outras “feiúras” minhas. A parte sobre que aprendemos com o feminismo a achar coisas bonitas nos outros, mas não na gente, me toca muito.
    Tenho um SÉRIO problema com a minha vagina, acho ela horrível, com os pequenos lábios nada pequenos, e isso me afeta muito, principalmente minha vida sexual. Foi legal ver uma visão sobre o quanto ser feminista ainda assim nos prende a opressões, muitas delas dentro das nossas próprias cabeças.
    Fico procurando inúmeros videos na internet, sobre a cirurgia que vai “reparar meu problema”, ,e deixando mais bonita, é normal. Sim, porque eu não me sinto normal, a minha vagina não Eh a vagina que mostram por aí.

    Curtido por 1 pessoa

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