Os anos de chumbo para as mulheres: a ditadura militar no Brasil.

Por Janaina Marques

Eva Todor, Tonia Carreiro, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengel. Encontrado em imagesvisions.blogspot.com

Eva Todor, Tonia Carreiro, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengel.
Encontrado em imagesvisions.blogspot.com

Nós que nascemos nas décadas de 80 e 90 chegamos a um país aparentemente limpo de qualquer resquício da ditadura militar. Nossos pais disseram algo sobre, na escola só foi mencionado em algum item 2.1.3 do capítulo 2 do 2º Bimestre da 5ª Série em Estudos Sociais e ficou por isso mesmo.

Assim, podemos perceber que a ditadura (que durou 21 anos) no Brasil sofre uma invisibilidade em si, talvez naquela crença de que se a gente não falar sobre, esqueceremos as marcas, as coisas ruins dela vão embora. Dá-se a entender que com o término da ditadura os torturadores desapareceram junto. Mas não, os ditadores, as cicatrizes e algum aspecto cultural da ditadura ficaram no nosso país. Não é à toa, por exemplo, que até hoje na Alemanha há marchas pró-nazismo.

Além dessa invisibilidade da própria ditadura e suas consequências, há o agravante do que aconteceu com as mulheres militantes nesse período. Tem-se a ideia de que os homens exclusivamente foram para o embate e as mulheres ficaram em casa fazendo umas fatias húngaras e um café fresquinho. Mas não. Ainda que poucas, as mulheres foram para o enfrentamento da ditadura militar, como exemplo a nossa presidenta Dilma Rousseff. Será que os castigos respeitavam uma suposta “igualdade de gênero”?

Com certeza não. De fato dentro dos centros de tortura, como o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e DOICODI (Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) o castigo às mulheres excediam os choques, os paus-de-arara, eles migravam para a opressão sexual, e antes disso as mulheres também sofriam machismo dentro das organizações de esquerda, experimentando a violência psicológica nessa e a física, sexual com os militares como podemos ver nesses trechos:

Eu era sempre pendurada nua, de cabeça pra baixo. Uma vez puseram um arame na minha vagina. O sargento José Roberto metia a cabeça entre as minhas pernas e gritava: “Você vai parir eletricidade”. Essa foi uma lembrança amarga que ficou (Marie Claire in GROSSI, 2012, p 113)

Apesar de a mulher militante buscar tornar-se protagonista ativa da história, lutando contra a ditadura militar, para construir uma sociedade mais solidária e justa, essa participação muitas vezes era invisibilizada pelo próprio movimento no qual estava inserida. Essa luta também acarretava custos, o isolamento da família. A família ficava distante das atividades clandestinas das filhas: somente a prisão as aproximava. Havia uma ruptura entre a família e a militante pelas condições de clandestinidade. (LUSTÓSA in GROSSI, 2012, p. 111)

Eu era a única mulher entre sete homens. Fiz um puta esforço para chegar lá. Minha militância foi uma batalha: além de tudo, havia o preconceito machista. Para nós, mulheres, a militância era uma faca de dois gumes: era uma vivência de confusão entre a recusa à dominação e o reconhecimento nas diferenças. A tentativa de uma troca igual quase sempre dava em troca desigual. Chamávamos nossos namorados de companheiros e essa palavra significava tudo que desejávamos. Mesmo que nem nós nem eles tivéssemos conseguido realizar o companheirismo e muitas frustrações tivessem se acumulado. (Marie Claire in GROSSI, 2012, p.114)

Assim, além da invisibilidade política e social que todos aqueles que lutavam contra a ditadura sofriam, as mulheres sofriam muita misoginia ficando duplamente marcadas pelo período. Até hoje carregam as marcas das torturas físicas, sexuais e psicológicas (que ocorriam tanto pelos militares quanto pelos companheiros).

Junto com todas as marcas da ditadura, a questão da mulher nela caiu mais ainda no esquecimento. Se pouco ouvimos falar da ditadura, muito menos ouvimos falar das mazelas que as mulheres militantes passaram por ela. Isso retoma o início desse texto onde se fala que a equívoca estratégia que foi tomada para que a ditadura fosse superada foi a do silêncio, o que apenas fez com que o bicho fascista que paira entre nossas cabeças fosse alimentado e lamento em dizer que ele cresceu e ficou forte.

Uma hora ou outra todo esse fascismo internalizado da época da ditadura viria à tona. Depois das manifestações de Junho pudemos vivenciar essa emersão. Com as discussões políticas entre os cidadãos a todo vapor, a polarização se tornou um fato. Alguns resolveram libertar o que tinham de bom e os outros resolveram libertar o seu lado mais sórdido.

Não é à toa que recentemente presenciamos um dos ídolos icônicos da ditadura militar, Jair Bolsonaro, reproduzir mais uma faceta de todo o seu pensamento fascista incitando estupro contra Maria do Rosário dentro do Congresso. Assim temos apenas uma projeção, no entanto bem valiosa para nossas análises, do que foi a ditadura, do que foi a misoginia nela e um pouco do que ainda temos de ambas. Portanto podemos dizer que não falar do assunto, não vai resolvê-lo, muito menos findá-lo. Temos que aproveitar agora que se fala a todo momento da ditadura em função da Comissão da Verdade e escancarar essa cultura misógina e fascista que começa a mostrar suas asas no nosso país para cortá-las. Vamos dar nomes aos bois, vamos falar e vamos lutar.

Referência

GROSSI, Patrícia Krieger (organizadora). Violência e Gênero: coisas que a gente não gostaria de saber. 2ª ed.atual.ampl. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2012.

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