“O que o feminismo fez por você em 2014?”

Por Juliana Rocha

Frederick Boissonnas, Four Dancers in Flight, 1900

Frederick Boissonnas, Four Dancers in Flight, 1900

Agora no final do ano eu vi que algumas feministas perguntavam no Facebook o que elas teriam feito por nós neste ano que passou. Também vi em muitos grupos a pergunta “O que o feminismo fez por você em 2014?”.

Como eu tive o final de ano mais difícil de toda minha vida, não respondi para nenhuma das mulheres e em nenhum grupo. Não pensei sobre isso por estar muito deprimida. Vi algumas respostas e sem duvida a mais freqüente era o quanto o feminismo empoderou e nos libertou.

Como estou passando por uma depressão, não me sinto empoderada. Eu tive uma perda irreparável, então não me sentia livre. Estava presa nesses sentimentos e não conseguia pensar em nada de bom sobre o que o feminismo – ou qualquer outra coisa ou pessoa – tenha feito por mim.

Apesar do feminismo ter me dado voz, ter me dado poder, ter me ajudado a me amar e aceitar meu corpo, não me sentia sequer amparada.

Era um momento de amargor tão grande, que eu não sentia nada de bom.

Foi quando, de repente, lendo uma relato de uma mulher trans que foi impedida de usar o banheiro no cinema – tanto o feminino quanto o masculino – eu vi que o feminismo nada tinha a ver com aquele meu momento. E que o feminismo não é necessariamente para trazer benefícios práticos, mas principalmente consciência do mundo. E isso muitas vezes dói. Aquele relato me doeu e outros voltaram a me doer, junto com minha perda pessoal.

Foi quando eu senti o que de melhor o feminismo fez por mim: ele me ensinou a ouvir as mulheres. Ter empatia por elas. Aprender com elas sobre o patriarcado, sobre opressões e sobre todas as outras coisas e querer mudá-las. Aprender que eu também oprimia, e que eu também tinha privilégios. A fazer recortes sobre racismo, gênero, classe, etc.

Aprendi nesse ano que passou muito com o feminismo negro e transfeminismo. Aprendi sobre local de fala. Aprendi a dar voz às mulheres. E o que temos a dizer são histórias de violência, luta, opressão, resistência. Isso nem sempre empodera. Pelo contrário: muitas vezes nos revolta e deprime.

Mas coisas como esta me mostram, mesmo num momento de dor e desespero, que feminismo não é sobre mim ou para mim. É sobre mulheres, para mulheres.

Foi neste momento que eu voltei a sentir além da minha própria dor e da minha perda

Agradecimentos especiais pelos ensinamentos em 2014 : Sueli Feliziane, Stephanie Ribeiro, Janaina Marques, Vitória Fox, Gizelli Sousa, Daniela Andrade, Djamila Ribeiro, Mandy Mazza, Gabriela Moura, Aline Alves Joaquim , Maria Clara Araújo, Jéssica Ipólito, Luana Júlia, Hailey Kaas e Maria Gabriela Saldanha

Meu amor eterno e agradecimentos especiais pelo companheirismo, força, amizade, poder e destruição: Janaina Marques, Stephanie Ribeiro e Vitória Fox.

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