As faces da opressão dentro da militância de esquerda

Por Gabriela Moura

Da página Revolução com Fofura

Revolução com Fofura

Muito parecidas com a direita que tanto se critica, algumas fatias da esquerda brasileira não perdem tempo ao debocharem de minorias sociais, sob o pretexto do humor ou alegando que seus diplomas universitários os tornam automaticamente mais corretos que outras pessoas.

A esquerda brasileira soube usar a seu favor as tecnologias disponíveis para pulverizar suas pautas em diversos ambientes da sociedade, tais como universidade, trabalho, rodas de amigos, graças às redes sociais. Ferramentas poderosas para a disseminação e troca de conhecimento, as redes sociais ajudam a conhecer assuntos novos, reforçar grupos de debates e articular movimentações. Desde páginas de humor até coletivos, os grupos e fanpages têm a premissa de levar informação até onde ela antes não chegava. Graças ao poder de união da world wide web.

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Acontece que as pautas da esquerda são ásperas, difíceis de digerir e, não raro, traumáticas para os interlocutores dos debates. Racismo, machismo, transfobia, violência infantil, homofobia, capacitismo, entre outros, são violências que atingem os indivíduos em intensidades diferentes, física ou psicologicamente. Por isso, inclusive, fazem-se necessários grupos de apoio e segurança. São assuntos que envolvem séculos de opressão, por isso mesmo é preciso entender os contextos, os diferentes preconceitos, como eles se manifestam e, a partir dai, definir táticas de resistência.

Justamente por serem assuntos sempre densos e que exigem análises profundas, infelizmente alguns militantes têm se esquivado de tais situações, permanecendo nas primeiras camadas das conversas e evitando ir mais além nos temas, tratando tudo com superficialidade, e o pior, desdém. Infelizmente as opressões supracitadas têm sido cada vez mais comuns entre membros da esquerda, como algumas imagens deste artigo mostram.

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Recusando conversar sobre os efeitos sociais nocivos do racismo, evitando olhar o crescente número de assassinatos de pessoas trans ou ignorando que as populações periféricas não têm condição e escolha sobre direitos básicos como moradia e alimentação, por exemplo, os militantes agem exatamente como a direita reacionária que tanto criticam.

Em uma conversa sobre a construção social no senso de estética, acham que é imposição de regras o fato de estarem sendo questionados sobre jamais terem mantido relacionamentos sérios com pessoas negras ou trans, em vez de se juntarem a conversa para compreender como e até que ponto a sociedade molda nossos gostos. Pessoas que ignoram que estes debates não estão no âmbito individual, ou seja, não se trata da vida íntima de cada um, mas do comportamento coletivo, que dá a impressão de escolhas amorosas serem coincidência ou questão de gosto.

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Outro exemplo é quando se negam a rever ditados e expressões capacitistas, acreditando que o fato de nem todos saberem as raízes preconceituosas de tais termos os torna automaticamente inofensivos, mesmo quando as pessoas diretamente afetadas pelo capacitismo explicam quão danosos são estes hábitos. Além disso, não são raros os homens que seguem comportamentos machistas por meio de chacotas contra mulheres ou mantendo posturas dominadoras em relações abusivas, ao mesmo tempo em que ostentam pôsteres de Che Guevara ou Bakunin em seus quartos.

O fato de nem todos serem atingidos por determinadas opressões faz com que estas pessoas acreditem que não precisam buscar saber mais sobre. E quando questionada preferem, em vez de buscar o entendimento, proferir ofensas a membros da própria esquerda que denunciam esses atos.

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A esquerda conservadora, que acredita que para ser de esquerda basta postar piadas sobre Olavo de Carvalho ou Aécio Neves ou ler O Manifesto Comunista se nega a questionar o status quo. Humilha e tira a voz de mulheres, pessoas trans e negros, especialmente quando protegidos pelo anonimato da internet ou utilizando a falácia da autoridade para representar uma superioridade intelectual contra os que não possuem a mesma formação.

Esta esquerda, que luta mais pelo holofote do que pela mudança social age em alvoroço quando sua bolha é furada e são retirados da zona de conforto através de denúncias sobre seus atos violentos.

Revolucionários, pero no mucho.

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