Vamos falar sobre Doulas e Violência Obstétrica?

Por Doula Laura Muller

Doula e Educadora Perinatal , Facilitadora em Grupos de Coletivos Feministas, Facilitadora em cursos de formação de Doulas. Autora do Projeto Fênix Para Vítimas de Violências Sexuais e Obstétricas, Voluntária e Coordenadora do Grupo Gestar Ouro Preto- MG e  Mãe do Arthur.

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Cada vez mais pessoas buscam por informações há muito tempo perdidas pela medicalização do parto. Com a chegada de novas tecnologias, vimos um evento fisiológico como o parto ser transformado em algo patológico, sendo retirado o protagonismo no parto da mulher. Nós Doulas, estamos aqui para ajudar a devolver esse protagonismo às mulheres, para que sejam respeitadas dentro das instituições hospitalares. Com informações atualizadas e embasamento científico, as Doulas desmistificam a cesariana sem reais indicações e trabalham para que a mulher venha a ter uma experiência boa na hora do parto. Doulas não são contra a cesariana ou intervenções no parto, desde que essas sejam feitas com real necessidade e não como prática de rotina ou protocolo institucional.

Nesse momento já são discutidas em Brasília novas diretrizes para assistência ao nascimento devido aos índices absurdos que o Brasil ostenta. Enquanto a OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza até 15% de taxas de cesarianas, no Brasil temos um índice de 54% na rede pública e de mais de 80% na rede privada e já temos como dados que 1 a cada 4 mulheres são vítimas de violência obstétrica* no Brasil.

“A violência obstétrica é a imposição de intervenções danosas à integridade física e psicológica das mulheres nas instituições e por profissionais em que são atendidas, bem como o desrespeito a sua autonomia. Tais intervenções, praticadas de forma rotineira no momento do parto são consideradas, de acordo com as diretrizes da OMS (1996), como um fator de risco tanto para a mulher como para o bebê. Crenças e preconceitos a respeito da sexualidade e saúde das mulheres presentes na sociedade patriarcal contribuem com a forma como são vistas e (des)tratadas por estes profissionais.

A violência obstétrica implica em violações de direitos humanos, como o direito a integridade corporal, à autonomia, a não discriminação, à saúde e a garantia do direito aos benefícios do progresso científico e tecnológico. A necessidade de informação e formação das mulheres é a forma existente para prevenir e erradicar a violência obstétrica.” (Fonte: Artemis – Aceleradora Social)

E é contra essa realidade que Doulas, Obstetrizes, Enfermeiras obstétricas, Parteiras, Ativistas e Obstetras humanizados, se unem atualmente.

Parafraseando Michel Odent: “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer.”

 

O que é Doula?

A palavra Doula vem do grego e significa “mulher que serve”, sendo hoje utilizada para referir-se à mulher sem experiência técnica na área da saúde, que orienta e assiste a nova mãe no parto e nos cuidados com bebê. Seu papel é oferecer conforto, encorajamento, tranquilidade, suporte emocional, físico e informativo durante o período de intensas transformações que está vivenciando.

Antigamente o nascimento humano era marcado pela presença experiente das mulheres da família: irmãs mais velhas, tias, mães e avós acompanhavam, instruíam e apoiavam a parturiente e recém mãe durante todo o trabalho de parto, o próprio parto e os cuidados com o recém-nascido.

Atualmente os partos acontecem em ambiente hospitalar e rodeado por especialistas: o médico obstetra, a enfermeira, o pediatra… Cada qual com sua especialidade e preocupação técnica pertinente. O cuidado com o bem estar emocional da parturiente acabou ficando perdido em meio ao ambiente impessoal dos hospitais, tendendo a aumentar o medo, a dor e a ansiedade daquela que está dando a luz e consequentemente aumentando as complicações obstétricas e necessidade de maiores intervenções.

A doula veio justamente para preencher esta lacuna, suprindo a demanda de emoção e afeto neste momento de intensa importância e vulnerabilidade. É o resgate de uma prática existente antes da institucionalização e medicalização da assistência ao parto, e que passa a ser incentivada agora com respaldo científico.

Os resultados deste apoio vêm trazendo revelações surpreendentes na redução das intervenções e complicações obstétricas, bem como facilitando o vínculo entre mãe e bebê no pós-parto.

 

O que a Doula faz?

  • Oferece suporte emocional através da presença contínua ao lado da parturiente, provendo encorajamento e tranquilidade, oferecendo carinho, palavras de reafirmação e apoio.
  • Favorece a manutenção de um ambiente tranquilo e acolhedor, com silêncio e privacidade.
  • Oferece medidas de conforto físico através de massagens, relaxamentos, técnicas de respiração, banhos e sugestão de posições e movimentações que auxiliem o progresso do trabalho de parto e diminuição da dor e desconforto.
  • Oferece suporte informativo explicando os termos médicos e os procedimentos hospitalares. Antes do parto orienta o casal sobre o que esperar do parto e pós parto.
  • Explica os procedimentos comuns e ajuda a mulher a se preparar física e emocionalmente para o parto, das mais variadas formas.
  • Também atua como uma ponte de comunicação entre a mulher, sua família e a equipe de atendimento, fazendo os contatos que a mulher desejar.
  • A doula se faz importante até mesmo numa cesariana, onde continua dando apoio, conforto e ajudando a mulher a relaxar e tranquilizar-se durante a cirurgia.
  • Pode estar presente no pós-parto, auxiliando a mãe no seu contato com o recém-nascido e com a amamentação.

 

O que a Doula não faz?

  • Não realiza qualquer procedimento médico ou clínico como aferir pressão, toques vaginais, monitoração de batimentos cardíacos fetais, administração de medicamentos.
  • Não é sua função discutir procedimentos com a equipe ou questionar decisões.
  • Não substitui qualquer dos profissionais tradicionalmente envolvidos na assistência ao parto.
  • Não substitui o acompanhante escolhido pela parturiente. Nesse caso a doula orienta o pai ou acompanhante a ter uma participação mais ativa no processo, sugerindo formas de prestar apoio e dar conforto à mulher.

 

Vantagens

 

Klaus e Kennel publicaram em 1993 em “Mothering the mother“(5) um estudo  onde apontaram os resultados globais da presença da doula no trabalho de parto e parto, como pode ser visto abaixo:

Redução de 50% nos índices de cesariana

Redução de 25% na duração do trabalho de parto

Redução de 60% nos pedidos de analgesia peridural

Redução de 30% no uso de analgesia peridural

Redução de 40% no uso de ocitocina

Redução de 40% no uso de fórceps

 

Outros estudos (3-4) também mostram claramente que a presença da doula no pré-parto e parto trazem benefícios de ordem emocional e psicológica para mãe e bebê, incluindo resultados positivos nas 4ª a 8ª semanas após o parto:

  • Aumento no sucesso da amamentação
  • Interação satisfatória entre mãe e bebê
  • Satisfação com a experiência do parto
  • Redução da incidência de depressão pós-parto
  • Diminuição nos estados de ansiedade e baixa auto-estima

As revisões da literatura científica elaboradas pelo notório grupo científico da Cochrane Collaboration’s Pregnancy and childbirth Group (1,2) inclui e valida diversos estudos abrangendo uma grande diversidade cultural, econômica e com diferentes formas de assistência. Confirma claramente que a presença da doula no suporte intra-parto contribui para a melhora nos resultados obstétricos, diminui as taxas das diversas intervenções e promove a saúde psico-afetiva da mãe e do vínculo mãe-bebê.

O mesmo grupo, em sua revisão publicada em 1998 declarou: “Devido aos claros benefícios e nenhum risco conhecido associado ao apoio intra-parto, todos os esforços devem ser feitos para assegurar que todas as mulheres em trabalho de parto recebam apoio, não apenas de pessoas próximas, mas também de acompanhantes especialmente treinadas. Este apoio deve incluir presença constante, fornecimento de conforto e encorajamento.”

Revisão da Biblioteca Cochrane, 2010, conclui que:

“Todas as mulheres devem receber o apoio de um acompanhante especialmente capacitado durante o trabalho de parto e parto”

O suporte contínuo durante o parto oferecido por acompanhante capacitada:

  • Aumenta as taxas de parto normal
  • Reduz a duração do TP e a necessidade de analgesia
  • Maior satisfação com a experiência de parto

Hodnett, Gates, Hofmeyr, Sakala. Continous support for women during childbirth. Cochrane, 2010

Reconhecimento e Recomendação pela OMS (Organização Mundial de Saúde)

A OMS (Organização Mundial de Saúde) incentiva o apoio da doula no parto:

“O apoio físico e empático contínuo oferecido por uma única pessoa durante o trabalho de parto traz muitos benefícios, incluindo um trabalho de parto mais curto, um volume significativamente menor de medicações e analgesia epidural, menos escores de Apgar abaixo de 7 e menos partos operatórios.”

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. OMS. Maternidade segura. Assistência ao parto normal: um guia prático. Genebra: OMS, 1996

Ministério da Saúde recomenda o suporte da Doula

“O apoio da doula, além de melhorar a vivência experimentada pelas mulheres que dão à luz, parecem ter uma influência direta e positiva sobre a saúde das mulheres e dos recém-nascidos. Devem, portanto, ser estimuladas em todas as situações possíveis.”

 

“O acompanhamento da parturiente pela doula reduz a duração do trabalho de parto, o uso de medicações para alívio da dor e o número de partos operatórios. Alguns estudos também mostram a redução do número de cesáreas. Também é observado que os grupos de parturientes acompanhadas durante o parto pela doula têm menos depressão pós-parto e amamentam seus recém-nascidos nas primeiras seis semanas de vida em maior proporção que as parturientes dos grupos de controle.”

Parto, Aborto e Puerpério – Assistência Humanizada à Mulher, 2001

 

Estarei presente nesta coluna trazendo informações e esclarecendo dúvidas sobre gestação, parto e maternidade. Para conhecer mais sobre meu trabalho, visite a fan page no facebook ou blog. Se preferir, envie um e-mail para doulalauramuller@gmail.com

 

BIBLIOGRAFIA:

  1. Hodnett ED, Gates S, Hofmery G J, Sakala C. “Continuous support for women during childbirth” (Cochrane Review) In: The Cochrane Library, Issue 3, 2003.
  2. Hodnett ED.“Support from caregivers during childbirth” (Cochrane Review) In the Cochrane Library, Issue 2. Oxford Update Software, 1998. Update quaterly.
  3. Sosa R, Kennel JH, Klaus MH, Roberteson S, Urrutia J. “The effects of a supportive companion on perinatal problems, length of labor, and mother-infant interaction.” N Engl J Med 1980 Sept.; 303:597-600.
  4. Wolman WL, et al. “Postpartum depression and companionship in the clinical birth envoirment: a randomized, controlled study.” Am J Obstet Gynecol, 168: 1388-1393, 1993.
  5. Klaus M, Kennel J. “Mothering the mother: how a doula can help you to have a shorter, easier and healthier birth.” Hardcover
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