Garota interrompida

Por Vitória Fox

mdig.com.br

mdig.com.br

Sou filha única de pais que me tiveram na maturidade. No meu mundo de poucas crianças, a convivência com pessoas adultas sempre foi regra e não exceção. Nas minhas festinhas tinha mais amigos dos meus pais do que meus. Isso fez com que desde cedo eu acompanhasse as conversas de adultos, ruminasse o mundo dos adultos, performasse uma face adulta, apesar de não ser adulta.

Na adolescência meu pai dizia que eu era muito polêmica, que não poderia ser assim porque senão acabaria com as mãos marcadas pelos murros em pontas de faca. Minha mãe ficava entre o desespero e a admiração, preocupadíssima com os meus modos – sou dessas que em uma discussão fica mais do que exaltada. Nos jantares em minha casa ocorria aquela divisão de grupos de acordo com o gênero. No grupo das mulheres receitas de bolo, criação de filhos e liquidações no Shopping. No grupo dos homens futebol, carros, aviões e política. O que me interessava mesmo era a política, como eu amava!

Só que nessas conversas eu nunca poderia ir mais além e concluir um raciocínio já parido. Me interrompiam dizendo que aquilo era conversa de adulto e que eu não “sabia de nada”, que não poderia dar pitaco já que me faltava experiência e formação. Não interessava quantos livros eu já havia lido – e eram muitos! -, apenas que eu deveria respeitar as pessoas mais velhas. Então subir o tom, interpelar, interromper, ou pedir para a pessoa esperar eu terminar de falar eram gestos que estavam no rol dos comportamentos ofensivos. Eu só ficava confusa porque todos podiam fazer isso, menos eu. Todos os que estavam naquelas discussões, que eram homens, já que as mulheres estavam excluídas daqueles espaços e não é difícil imaginar o porquê.

O tempo foi passando e eu cresci. Veio a faculdade, o primeiro emprego, o mestrado, a entrada no doutorado… Tudo em história, com bastante política, direito, sociologia, antropologia, teologia e filosofia. Minha lista de leitura só aumentou, e não que eu seja genial, mas ninguém pode mais usar como desculpa a minha falta de experiência e formação.

E mesmo com toda a minha trajetória, ainda sou uma garota interrompida. Ainda tenho que ouvir muito “senta lá porque nem viva você era” em um debate sobre o Golpe de 1964. Só que – rysos – sou historiadora. Se for partir desse princípio, eu não poderia nem trabalhar com o século XIX, período que se concentram minhas pesquisas.

Então entendi que não era o fato de ser jovem e despreparada que retirava minha agência sobre as discussões. Em pleno ano de 2015 sou obrigada a admitir que isso acontecia – e acontece – por eu ser mulher. Se um homem afirma o que eu já havia falado antes, a recepção ao seu discurso é outra, e mesmo que as outras pessoas discordem de sua ideia central, a reação é muito mais branda. Isso já aconteceu mais de uma vez, e em diversas delas na mesma ocasião.

Quando me diziam para ser educada, não levantar a voz, ouvir mais e falar menos, estavam me treinando para agir dessa maneira pelo resto da vida. A questão é que não posso ser uma pessoa na Universidade e outra na ceia de natal. Sou historiadora 24 horas por dia, e isso não é negociável.

Aos poucos vou aprendendo a conquistar os espaços que me são negados, e isso não acontece sem que haja um reconhecimento do meu valor e dos gestos hostis para minar minha autoestima. Sugiro às outras mulheres que façam o mesmo. A sociedade é treinada a sempre ouvir o que um homem tem a dizer, e as mulheres que se conformem com os lugares destinados a elas. Mas conversar sobre política também é fazer política, e excluir o gênero feminino do debate é só uma das formas de nos manter distantes das mudanças que precisamos empreender.

Quanto a mim, continuarei contrariando os conselhos de meus pais e sendo uma garota mal educada. Interrompida, nunca mais!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s