Depressivas, fóbicas sociais, borderlines e o feminismo excludente.

PorVitória Fox

Autor não identificado.

Autor não identificado.

Talvez eu não seja a melhor pessoa para tocar nesse assunto, uma vez que não sou psicóloga e nem psiquiatra, mas como depressiva e fóbica social, sinto que essas questões não estão sendo tratadas da forma que deveriam pelos movimentos sociais. E o feminismo não fica de fora.

Por diversas vezes vi companheiras de militância falarem sobre os traumas psicológicos que ficam nas vítimas da violência misógina. Dizer que uma mulher que sofreu diversos abusos no decorrer de sua vida pode vir a desenvolver algum transtorno mental é um genuíno clichê do movimento feminista. Esse problema é mencionado nos livros, nas teorias de gênero, nos coletivos, nos partidos políticos, nas palestras, nos eventos, nos fóruns da internet, mas será que ele é realmente levado a sério?

Se imaginem na seguinte situação: você acabou de ser vítima de um stalker e mesmo após as perseguições cessarem, acaba descobrindo que desenvolveu um transtorno de ansiedade social.[1] Então passa a ter medo de coisas e situações completamente banais: medo de sair de casa, de frequentar as aulas, de atender o telefone, de sair desacompanhada, de falar em público, de se ver sozinha em meio a uma multidão, de iniciar amizades novas. Você começa a evitar o espaço público, os encontros com os amigos, as aulas que precisa assistir, os jantares com seu marido. Só que ironicamente você é ativista e a luta política acontece coletivamente. Você tem que assistir e dar palestras, ir a protestos, escrever textos assinados com o seu nome, disponibilizar seus contatos, ou seja: estar em diversas situações que a colocam em evidência. Mas você não consegue e nem tem forças para socializar, tampouco para falar sobre suas limitações abertamente, e acaba sendo esquecida pelas próprias companheiras de militância. Como diz o ditado popular: “quem não é visto não é lembrado”, e isso não serve só para quem precisa sair na revista Caras.

Já fazem mais de três anos que isso ocorreu comigo, e essa é a primeira vez que menciono publicamente a perseguição que sofri. Apenas meus amigos mais próximos e alguns professores e colegas da faculdade sabem do que ocorreu. Já falei sobre isso com algumas feministas, mas a maioria ficou consternada para depois esquecer, sem em nenhum momento pensar sobre as formas possíveis de me incluir, já que não sou uma pessoa em condições de pegar um megafone ou fazer algo icônico. E é tão irônico falar em sororidade quando as defensoras dessa bandeira são incapazes até de perguntar como foi o seu dia.

O feminismo, apesar de se assumir como um espaço contestador das práticas e valores da sociedade tradicional, ainda leva em consideração atributos como “popularidade”, “evidência” e “influência” para decidir para quem sua atenção deve se voltar.  E é um absurdo eu ter que dizer isso, mas grande parte – provavelmente a maioria – das mulheres que foram vítimas da violência misógina não possuem essas habilidades sociais. Seja porque a perderam no meio do caminho, seja porque as mazelas que sofreram são tão antigas que nunca tiveram a possibilidade de desenvolverem-nas.

E então você sente que a sua presença nos coletivos não faz muito sentido, porque você nunca será capaz de puxar um grito de protesto ou de agregar várias pessoas em um evento. No caso das fóbicas sociais, até conseguir iniciar uma amizade nova é difícil, imagine falar a uma multidão ou fazer um protesto de top less.

Dessa forma, o feminismo acaba repelindo as mulheres que precisam de ajuda e de um espaço para se reinventar e reconstruir sua autoestima. Muitas delas se afastam e voltam a estar em situações de riscos. Seja por carência ou necessidades materiais, as chances de caírem em um outro relacionamento abusivo ou de retornarem para os braços do antigo agressor são grandes. E é a vida delas que está em jogo.

Trabalhar com as necessidades emocionais dessas pessoas é imprescindível para elas conseguirem ter uma vida minimamente produtiva e satisfatória. Uma mulher abalada, com a autoestima destroçada e que não consegue ser ouvida, tem grandes chances de se tornar vítima novamente. E se o feminismo não a escutou, sua voz poderá ficar registrada apenas nas estatísticas. Um número a mais ou a menos, que diferença faz? Não adianta esses problemas serem temas de ensaios e artigos acadêmicos, gritos de protestos e frases clichês da sororidade, se tais citações servem apenas para fingir que se importam. Não se importam e nós sabemos disso quando somos ignoradas e excluídas por não sermos populares o bastante para justificar o interesse em nós.

“Ah, mas então o que pode ser feito?” – Ouvir, agregar, pensar em formas de acolher essas mulheres de acordo com a necessidade de cada uma delas. Muitas vezes perguntar como ela está e elogiar seus pequenos feitos já é um grande incentivo. Ter paciência com suas limitações. E isso tudo pode ser resumido em uma frase: Ser amiga, não mais que isso.

[1] Popularmente conhecido como “fobia social”.

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20 Respostas para “Depressivas, fóbicas sociais, borderlines e o feminismo excludente.

  1. Me sinto assim em relação a aceitação do meu corpo. Vejo feministas aos montes postando foto de seus corpos, empoderadas, confiantes, seguras. Acho muito bom que elas tenham conquistado isso. Mas eu não conquistei, e nem sei como conquistar, na verdade. E eu vejo as que já são empoderadas recebendo mais apoio ainda “diva!! maravilhosaa!!! lacrou!!!” o que é ótimo, mostra o apoio das feministas às empoderadas, porque tem que ser mesmo. Mas de fato não sinto apoio nenhum por não ter esse nível de confiança. De fato as populares são as que já se sentem incrivelmente bem com elas mesmas, e as que ainda tão inseguras demais ocupam o mesmo lugar que ocupavam na escola: a da feinha da turma, estranha.

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    • Rafaela,

      com toda a certeza vc não é a única, e infelizmente eu vejo esse cenário que vc descreveu ser muito comum. O problema não é a atenção voltada a quem já está empoderada, pelo contrário: essas mulheres são exemplos para nós. Contudo, deveria haver mais atenção a quem ainda não atingiu essa auto-confiança. Esses transtornos mentais acometem boa parte das mulheres que já sofreram algum trauma, e por experiência própria eu sei que quando vc está com a auto-estima abalada, é muito mais difícil reagir para se libertar da violência.

      Um grande abraço ❤
      Vitória Fox

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    • Rafaela, eu entendo como é isso. Não cheguei ao ponto de estar 100% bem com o meu corpo (e me pergunto quando acontecerá), e me vejo excluída. No feminismo não deveria haver populares. Todas deveríamos fazer parte de um grande grupo de apoio, de força e luta.
      Não se sinta só.

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  2. Que legal, um texto sobre emponderar quem não é emponderada pelo feminismo vindo de uma feminista que freqüenta o espaço acadêmico e que é 10 vezes luz mais emponderada que muitas. Legal moça.
    Só que feminismo não é terapia

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    • Só que o feminismo deveria ser sim uma espécie de terapia, ele deveria nos libertar, nos deixar mais seguras pra sermos/agirmos como quisermos dentro de nossos próprios limites, ao invés daqueles q nos são impostos, e não fazer com q nos sintamos diminuídas, pra isso já existe o machismo.
      Pra isso deveríamos ser aceitas umas pelas outras, n importa como sejamos, não é um pedido muito grande, é um pedido de apoio de solidariedade, que pelo q sabemos é o q propõe o movimento.

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    • Cel, nunca neguei o privilégio de ser acadêmica em um mundo em que uma minúscula parcela da população usufrui desse espaço. Mas infelizmente essa posição não me privou de ser vítima de um stalker e desenvolver fobia social. Pelo contrário: a minha fobia quase pôs tudo a perder, inclusive minha vida profissional.

      Um grande abraço,
      Vitória Fox.

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  3. O problema é que o feminismo atual não está ai para ajudar a resolver os problemas e sim para arranjar um espaço ao sol para poucos brilharem e colocarem suas vontades sobre a de outros “mais fracos” (famoso ditado: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Hoje é apenas mais um grupo tentando mandar em outros infelizmente. Vc não tem esse perfil para aparecer e ditar, vc não serve.

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  4. Obrigada pelo texto!
    Como uma mulher depressiva que se interessa pelo feminismo sempre me fiz essa pergunta: Como uma pessoa com tantos tantos históricos de contatos aversivos oriundos de seu ambiente pode se envolver em uma causa que preza tanto o envolvimento social? O final do texto disse tudo pra mim, o que seria bom para todas nós seria somente um pouco de paciência, um pouco de sensibilidade.

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    • Pois é, esse envolvimento social só será alcançado com o empoderamento e a recuperação da auto-estima e da auto-confiança. Por isso transformar o feminismo em um espaço acolhedor para as mulheres é uma necessidade urgente. Muito obrigada pelo comentário.

      Um grande abraço,
      Vitória Fox

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  5. Acho bom que textos como esse sejam publicados para que ocorra um “alerta” para as feministas em geral e que o movimento se torne mais eficaz. Porém, deve-se ressaltar que o feminismo, como tantos outros importantes movimentos sociais, tem como embasamento a MOBILIZAÇÃO social sendo necessária a existência de integrantes que consigam MOBILIZAR de fato aquele meio(conseguindo assim “puxar um grito de protesto ou de agregar várias pessoas em um evento”) e dessa forma resgatar e empoderar aquelas que ainda não atingiram essa libertação. Considerando também que o maior meio de dispersão do feminismo atualmente é a internet, percebe-se que se faz necessário algum (mínimo) feedback daquela que quer se libertar e no caso dessa ser depressiva e possuir fobia social é INEVITÁVEL que haja ACOMPANHAMENTO PSIQUIÁTRICO para que em conjunto de “forças” ocorra de fato o empoderamento e a libertação.

    Curtido por 1 pessoa

  6. Me identifiquei demais com o texto. Mas meu caso é um pouco diferente.

    Eu tenho fobia social, que com certeza está associada ao jeito que meu pai me tratou desde criança.
    Ele sempre me reprimiu; não me proibindo de sair, de ter amigos ou de ter namorados; ele me reprimia rebatendo tudo o que eu dizia, mesmo quando eu era apenas uma criança. Me reprimia não prestando atenção no que eu falava. Ou me interrompia, demonstrando tamanho desprezo pelas minhas palavras. Me reprimia dizendo com todas as letras que o que eu estava dizendo era uma grande besteira. Ele sempre gritou comigo quando eu era estabanada ou distraída, me xingando de “boba”, dizendo que eu deveria “por o dedo na tomada pra ver se eu me ligava”. Ele sempre me esculachou. E isso foi criando uma insegurança absurda em mim, meu próprio pai não levava a sério o que eu dizia… na verdade até hoje ele subestima o que eu digo.
    Por causa disso, a dificuldade em falar em público só foi aumentando com o passar dos anos, mesmo entre colegas de classe na escola. E hoje em dia eu tenho muita dificuldade de fazer amizades, principalmente quando me vejo no meio de um grupo de pessoas desconhecidas/semi-conhecidas. Eu fico nervosa, me retraio completamente e fico calada no meu canto, e quando digo algo, me embaralho toda, gaguejo, falo baixo e normalmente sou interrompida por alguém desse grupo, fazendo com que eu me retraia mais ainda. Dificilmente eu tenho voz em grupos. Eu morro de medo de me esculacharem, de rirem de mim, assim como meu pai sempre fez comigo. E assim, as pessoas acabam não me conhecendo melhor e me tratando com indiferença dentro desses grupos, por mais que eu seja mais amiga de um ou outro, isoladamente.
    Participar de reuniões de coletivos então, nem pensar. E claro, isso inclui os coletivos feministas da faculdade. Já até fiz parte do Centro Acadêmico do meu curso, mas nunca tive um reconhecimento por parte dos colegas de CA, justamente porque nunca me destaquei em reuniões ou em assembleias de curso, sempre me fechei e evitei ao máximo de dar minha opinião, não porque eu não queria, mas porque eu não conseguia dizer nada. Fico nervosa e não vem nada na mente. Resultado: por mais que eu tenha convivido com esse pessoal, eles não se tornaram meus amigos, porque eu ficava calada
    boa parte do tempo, e assim eles me desprezavam com sua indiferença.
    Já nos coletivos feministas, a única vez que participei de uma reunião e opinei sobre algo, uma moça rebateu o que eu disse de forma ríspida, hostil, me fazendo me sentir um lixo. Ao invés de me ensinar, de abrir minha mente, de explicitar onde eu estava errando, não, ela gritou comigo, me esculachou. Nunca mais voltei, afinal, estou farta de levar grito.
    Me considero feminista sim, tenho consciência de muita coisa, sei q falta aprender um bocado, mas participar de grupos feministas está fora de cogitação. Todas as feministas que conheço enchem a boca pra falar em sororidade, mas elas são as primeiras a não praticar. São grossas quando alguma mulher diz algo que não condiz com a “verdade absoluta” delas. Falam tanto em não competir umas com as outras, mas o tempo todo competem, discutem, são grossas, ignoram e desprezam quem não é forte como elas pra pegar um microfone e falar em público.
    Já fui a diversos psicólogos, e eles sempre me deixam pior do q já estou… Gostaria muito de conseguir enfrentar essa insegurança, e foi justamente pra enfrentá-la, q eu entrei pro movimento estudantil, pro Centro Acadêmico e pro coletivo feminista do curso, mas em todos esses ambientes eu me senti mais reprimida ainda, inclusive por mulheres feministas.

    Por mais textos e debates sobre fobia social e feminismo, aí quem sabe essas mulheres se conscientizam que tá faltando sororidade sim.

    Obrigada.

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