Imprensa Feminista entrevista – Laerte

Por Juliana Rocha, Mayara Rustoff e Bia Pagliarini Bagagli

Por Guia sa Semana

Por Guia da Semana

Em 2010, o mundo dos quadrinhos brasileiros sofreu uma grande reviravolta. De um dia para o outro, o melhor cartunista do país deixava de ser o Laerte Coutinho, com seus personagens e humor consagrados. Em seu lugar uma mulher, com o mesmo nome e traço do Laerte, mas com abordagens completamente diferentes, que chegam a dispensar até os personagens.

Hoje entrevistamos a Laerte, que se revelou transexual em 2010 e de lá para cá vem desafiando seu público dentro e fora dos quadrinhos. E não só isso: com seu jeito paciente e muitas vezes até didático, vem ajudando a dissolver vários preconceitos que rondam os universos transexual e feminino. Sua obra tem auxiliado na desconstrução dos papéis tradicionais de gênero e sexualidade, provocando a reflexão, o pensamento crítico e o combate ao preconceito. Sem mais delongas, vamos à entrevista, que está muito interessante.

Imprensa Feminista:  O que mudou mais na sua vida depois de sua transição? O que mais te incomoda?

Laerte Coutinho:  A maior mudança é interna – me sinto mais próxima de alguma coisa que parece ser eu mesma. Dá um sossego…

Não sei o que me incomoda, na transição em si.

Acho que nada.

IF:  Cada vez mais pessoas trans estão se politizando e ocupando os espaços públicos. O que isto significa para você?

Laerte: Acho ótimo. Talvez seja um movimento que esteja acontecendo em todas as àreas, não só na das pessoas trans.

Preconceitos sendo superados, gente se encontrando, troca de experiências, amadurecimento, politização.

É uma visão otimista, mas nem por isso de algo imaginário.

IF: O movimento feminista muitas vezes abriga e empodera mulheres trans e travestis. Qual é sua visão do movimento? Quais os resultados práticos em sua vida?

Laerte: Muitas vezes abriga e muitas vezes briga, é preciso dizer. Não é uma convivência sem tensão.

Há áreas do feminismo que só aceitam mulheres que nasceram com a “genitália certa”, digamos.

Inclusive se dispõem a aceitar homens trans, por este motivo.

Entendo que feminismo é uma atitude e que corresponde, na vida, a variadíssimas práticas.

Pessoalmente, convivo de algum modo com o feminismo desde a década de 80, com pessoas que participavam dos jornais Nós Mulheres e Brasil Mulher e de movimentos sociais.

IF: O que falta em sua vida para você se sentir plenamente satisfeita? O que falta alcançar?

Laerte: Não existe a satisfação plena, no meu modo de ver.

Nem a felicidade, que é um conceito parecido – não penso nesses sentimentos como possíveis de virarem metas absolutas.

Sempre há de faltar e sobrar.

IF: Vejo muitas pessoas questionando sobre sua identidade. Sabemos que essa insistência diz muito respeito da necessidade de categorizar as pessoas compulsoriamente entre identidades masculinas e femininas, sendo uma coisa excludente da outra. O que você acha dessa insistência das pessoas? Acaba sendo ofensivo para você?

Laerte: Não é ofensivo, não – de certo modo, corresponde a inquietações minhas, também – faço parte da mesma sociedade e convivo desde sempre com a obsessão binarista do “masculino” e “feminino”.

E é isso mesmo – essa necessidade de encaixar identidades aqui e ali dificulta muito o avanço de ideias como as da chamada Teoria Queer e fortalece ações “corporativas” no movimento LGBT.

IF: Com o recente atentado à revista Charlie Hebdo, ressurgiu o debate sobre o humor na sua relação tensa entre sua importância e o limite da liberdade de expressão. Como você vê a questão do humor quando tocamos questões de grupos minoritários e oprimidos? E mais especificamente, como se dá essas questões com a causa transgênera? Existe um limite para o humor?”

Laerte: O atentado na França excitou um debate que já vinha ocorrendo no Brasil – e que vai ainda continuar.

Acho que vivemos uma ansiedade por enquadramentos e regulamentações em coisas que são necessariamente fluidas e mutantes.

Penso que o humor, assim como qualquer linguagem, não deve estar submetido a censura, principalmente quando ela acaba se constituindo em códigos tácitos – portanto, uma censura prévia.

Também acho que o humor (e a comicidade), também como qualquer linguagem, não é neutro ideológicamente e não pode reivindicar nenhum tipo de impunidade prévia, ou de inimputabilidade.

Isto significa que ofensas e circunstâncias que donfigurem crime podem e devem ser objeto de crítica ou de processos na justiça – se for o caso.

Em relação à população trans, tirando situações que podem configurar incitação à violência e ofensas qualificáveis em lei, o caminho é a contestação pública dos discursos e a denúncia deles enquanto perpetuadores de discursos fóbicos e preconceituosos.

IF:  Como você lida com o machismo, a misoginia e transfobia que muitos de seus colegas cartunistas reproduzem ainda hoje?

Laerte: Lido com atenção e paciência. Propondo uma discussão quando é o caso, denunciando quando é algo mais pesado.

Humor faz parte de uma estrutura ideológica que é passível de mudança, ao mesmo tempo em que precisa estar sintonizada com as mudanças culturais mais gerais.

Não me esqueço de que não sou guru (gurua?), não emito uma luz guia especial – e também já produzi muita história e cartum que hoje me parecem preconceituosas ou equivocadas.

IF: Você se sente privilegiada por ter sido socializada como homem?

Laerte: Privilégio significa uma “lei privada”, especial – nesse sentido, a nobreza detinha privilégios, ou igrejas têm o privilégio de não pagar IPTU etc.

Ser homem não é um privilégio.

A luta das mulheres tem o sentido de estabelecer paridade de direitos, e não de destituição dos que a população masculina detém.

IF: Como você se relaciona com a imensa visibilidade que dá às pautas trans?

Laerte: Às vezes isso me traz um sentimento de insegurança, como se o que eu pudesse falar ou deixar de falar tivesse um peso extra.

Em algumas ocasiões essa insegurança chegou a me bloquear e confundir. Não é algo fácil.

IF: Qual é a importância do feminismo para você? Você se considera feminista?

Laerte: Sim, eu me considero feminista.

É um movimento que marcou a nossa época, transformou as sociedades, influiu sobre outros movimentos – e continua vivo.

Há quem tente diminui-lo, afirmando que a mulher moderna não deve nada a ele, mas trata-se de histeria conservadora.

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