Carnaval é a festa da carne, mas a carne continua sendo minha

Por Gabi Porfírio

Autor não identificado

Autor não identificado

O carnaval foi ótimo! Blá blá blá. Aquela descida da Águia-Redentora da Portela quase me causa um infarto e a vitória da Beija-Flor desceu amarga, mas não invisível.

Mas uma coisa me incomodou muito mais que o carro do Salgueiro que representava o sofrimento dos homens escravizados e o bloco do Barbas (ruinzinho…).

Volta e meia, entre um bloco e outro, eu ouvia um coro majoritariamente de vozes masculinas gritando em uníssono “beija! Beija! Beija!”. A cena era sempre a mesma, acuada entre um homem e uma rodinha, uma mulher curvava o corpo pra trás, enquanto um homem curvava o corpo pra frente tentando beijá-la, e a rodinha “incentivando” a “perda de vergonha” ou a “aceitação” para que aquele beijo carnavalesco, enfim, acontecesse. E pelos gritos de comemoração depois dos de incentivo, o beijo acabava acontecendo.

E a cultura do estupro é cretina, né, gente? A primeira coisa que eu pensei, e que você também pensou, é que a mina não deveria ter beijado o cara, e que se beijou depois é porque antes estava fazendo doce. Mulher, né? Adora fazer charminho, diz não quando na verdade quer dizer sim, afinal é carnaval, beijo forçado não deve ser punido, e o cara não forçou, houve apenas um incentivo de amigos e desconhecidos para que aquele beijo acontecesse.

Campanha do G1 naturalizando um ato forçado!!!

Campanha do G1 naturalizando um ato forçado!!!

Vou te dizer, como mulher, o que eu penso quando um cara vem me beijar do nada, ou depois de uma troca de ideias: enquanto ele tá lá no blá blá blá você é linda, sua boca é linda, to apaixonado pelo seu sorriso, você é tão simpática (sssiiiimmmm, eu sei ser simpática), nossa…. eu to ali pensando se vale a pena beijar o cara. Só isso, pesando prós e contras, se vai valer a pena, se compensa ignorar a boçalidade dele ou se compensa arriscar ficar apaixonadinha, porque ele realmente é bem legal. To ali, entre um “obrigada” e outro, analisando a situação. Ao fim, se eu beijo o cara ou não foi uma escolha MINHA.

Mas, gente, quantas vezes eu não beijei pro cara simplesmente sumir da minha frente? Pra me livrar do sujeito, pra poder dançar em paz. Quantas dessas vezes eu não pensei que o cara estava sendo legal, e estava querendo me beijar, a mim, que nem sou bonita assim como ele estava falando. Tantas e tantas vezes beijei pra não ficar de antipática, de chata, de metida, ou no zero a zero – como fui levemente zoada no início desse carnaval.

E é assim que a cultura do estupro perpassa nossas escolhas e nossos julgamentos. Da maneira mais sutil, mas cruel. Um “não” deve ser respeitado. Uma recusa, um desvio não deve ser encarado como incentivo. Se faz parte do “jogo de sedução” da mulher não interessa a mais ninguém se não a ela mesma; acontece que esse “jogo” também é imposição de uma sociedade machista que julga a mulher como fácil demais se beija logo de cara, que dá na primeira noite.

E a coisa toda toma ares ainda mais escabrosos quando junta uma horda de desocupados pra apoiar a transformação de um “não” em “sim”. Amigos, de verdade, vocês incentivaram um comportamento extremamente machista e violento. E eu não vou nem entrar de novo no mérito de as mulheres terem “cedido” a essa pressão. Se você quer levantar essa questão, sugiro que primeiro você desconstrua esse incentivo a estupros que você não enxerga em si mesmo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s